O mundo fala galego: “Poema de amor em outono”, de Toño Núñez

O mundo fala galego: “Poema de amor em outono”, de Toño Núñez

Poema de amor em outono

 

Bate o vento do outono

na fiestra dos meus dias.

As feridas da ilusão

vão fechando.

Mareleam as folhas dos castiros

no Souto Escuro.

Como os meus cabelos.

Se miro para atrás

já me perdo na distância

do caminho andado.

Pero abisco, ao longe,

a infância.

Mas, ainda vou

como um neno desprezado

polos nenos

enchendo os recunchos

baleiros que deixades.

Ainda miro cara abaixo.

Devecem as horas dos dias

como devece o meu capital

de vida…

Xá vou canso de dizer sim

quando penso não.

Pero sigo sendo covarde.

A pesar de que já sei

que valho tanto

como essa folha esmorecida,

como essa minúscula formiga.

O mesmo ca vós.

E já presinto a noite.

Pero não tenho medo.

 

Não,

não estou só.

À minha beira revoam

duas pombas brancas

Que enchem o ar

de esperança.

E sempre estás tu.

E as árvores que prantei.

A tua voz quente

escorrenta o frio

dos meus pesadelos.

As tuas mãos resgatam-me

da cova dos agoiros

quando me perco.

Pero voltarei dizer que sim

ainda que pense o contrário.

Como um náufrago

que luta sem forças

no mar da incompreensão.

E sucumbe.

E seguirei fazendo versos

para vingar-me.

Vingar-me?

De quem?

Eu que sei…

Ai, a poesia…

Onde vai a poesia

do home?

Quem mudou a poesia?

Perco-me no labirinto

das palavras opacas

que pesam como lousas,

Pero sigo aqui,

teimudo,

amoreando lenha

para o inverno.

A primavera foi dura

e fria.

Avondosa em desejos.

Avondosa em carências.

Avondosa em complexos.

Pero descobri o amor.

E também o sexo:

esa força que sai

dos adentros

irreprimível, misteriosa…

e vai deixando trás de si

um ronsel de vida.

E morte.

O sexo pode-o todo.

Pero ja não é o que era…

E chegou o vrão.

E trouxe-te à minha beira.

E vi a luz

nos teus olhos

que vieram para alumar

o meu caminho de névoas.

Como fachos trermeluzentes

no cárcere escuro

das minhas soidades.

E o frio baleiro

do desamor

derreteu-se nos teus beiços.

E o sexo deixou de ser

desejo.

E sementamos juntos

a vida…

E já temos colheita.

 

Bate na fiestra

dos meus dias

o vento do outono

para lembrar-me que existo.

Seguem matando os homens.

Uns em nome do poder

que conquistaram.

Outros por acadá-lo.

Outros…

Non sei por quê.

Mas eu, engaiolado,

resisto

a carão do teu lume.

Pero… ai,

não o esqueço.

Um dia chegará

a noite.

Quiçá no inverno…

Aguardarei por ela

ao teu abeiro.

 

Toño Núñez (Poemas de amor en Outono. Fachinelo, 2014)

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VIII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VIII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VIII)

 

Yabra Ibrahim Yabra

جبرا إبراهيم جبرا

Yabra Ibrahim Yabra nasceu em Belém em 28 de Agosto de 1920 numa família cristã muito humilde. Com enorme esforço dele e dos pais cursou estudos na Universidade de al-Quds (Jerusalém) e mais tarde nas de Exeter e Cambridge (Grã-Bretanha) e em Harvard nos Estados Unidos. Em 1948, após a criação do Estado de Israel, foi obrigado a fugir da Palestina, com milhares de compatriotas seus, abandonando a sua casa de estreia em Jerusalém logo do bombardeamento polas* tropas sionistas do hotel Semiramis onde tantas pessoas inocentes de todo morreram. Após vários tentos ineficazes de ministrar aulas em Beirute e Damasco, estabeleceu-se em Iraque com contrato de professor na Universidade de Bagdade. Lá, conhece um grupo de poetas fundamentais na historia recente da poesia árabe moderna, dentre eles Buland al-Haidari, Nazik al-Malaika, Badr Shakir al-Saab e Abd al-Wahhab al-Bayati. Eles darão ao lume uma nova poesia que desbaratará todos os arquétipos técnicos e temáticos moldurados em catorze séculos.

Para Yabra Ibrahim a poesia “Pode ser considerada como débil demais, um brinquedo que se atira contra as espingardas, mas às vezes é tão boa como a dinamita. Patenteia todo o sofrimento e a cólera duma nação, cristaliza posições políticas por meio de linhas que, memorizadas polos* velhos e os novos, vigora a resistência popular e proporciona a palavra de ordem comum”.

Uma imensa curiosidade fez-lhe percorrer quase todos os gêneros: narrativa, ensaio, além da continua adição poética e pictórica. O intenso labor intelectual do poeta de Belém foi reconhecido com prémios numerosos como The Targa Europa Prize for Culture, Roma, 1983, o primeiro prémio da Kuwaiti Foundation for Scientific Achievement, en 1987, o Prémio Nacional Iraquiano de romance em 1988, a Medalha das Letras e das Artes de Jerusalém em 1990, a Medalha das Letras da Tunícia em 1991, o prémio da Universidade de Colúmbia ao seu trabalho de tradutor. Entre 1982 e 1990 foi eleito Presidente da União de Críticos Iraquianos; também fez parte da União de Escritores do Iraque e da Associação Internacional de Críticos da Arte, sediada em París e Membro de honra das Associações de Tradutores Iraquianos e da de Artistas do Iraque. O seu nome resoou várias vezes como candidato para o prémio Nobel de Literatura.

Yabra Ibrahim Yabra faleceu em Bagdade dum ataque ao coração o dia 12 de Dezembro de 1994.

Entre as obras poéticas são de destaque: Tammuz fi-l-madina (Adonis na cidade), 1959; Al-madar al-muglaq (A órbita fechada), 1964; Lawat al-shams (Aflição do sol), 1978.

Galerias

Não quisera, não quisera eu

fugir do meu labirinto,

do labirinto dos meus,

dos meus companheiros,

onde os mosquitos da corrupção supuram

enquanto à morte se resignam

dia por dia.

Durante a vida toda se dilata a morte

como uma eternidade.

Não quisera, não quisera eu

contar o meu labirinto,

eu, que são livre, livre

entre três valados

e o quarto é uma galeria que se dilata

como a eternidade.

Não quisera, não quisera eu contar

o meu êxodo

dum quarto para outro quarto

e um tenebroso vazio onde

o eco dos longínquos cascos

não cessa de ferir as minhas pupilas.

Como a eternidade se dilata

desde a terra da ausência

para a terra da ausência.

Ainda assim

na palavra livre achei

a minha saída.

Por fim na palavra encontrei

uma saída para o espaço

que perante mim se dilata

como uma eternidade.

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En lembranza de Ramón Chao, sempre connosco

Acto “En lembranza de Ramón Chao, sempre connosco”, que terá lugar o vindeiro sábado, día 30 de xuño de 2018, ás 12:30 horas, con comezo no Muiño do Rañego e chegada ao Piano Prisciliano.

Con posterioridade a este acto, familiares e amigos poderán acudir ao restaurante Terra Chá de Vilalba (sobre ás 15:00 horas) onde terá lugar un xantar en lembranza de Ramón Chao.

As persoas interesadas neste xantar poden anotarse chamando ao teléfono 982-511702, antes do 28 de Xuño (prezo:20€).

 

*Información facilitada polo IESCHA.

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (VII)

Abu Salma

(Abd al-Karim al-Karmi)

عبد الكريم الكرمي

 

VI

Montanha de al-Mukabbir9, que dilatado foi o teu dormir.

Desperta,

ergue-te e escuita* o takbir e o tahlil 10.

Montanha de al-Mukabbir, nấo quebrarấo as nossas lanças

até demolir sobre ti essa Bastilha.

VII

Eia! revolucionários do vasto mundo

contra os opressores da humanidade.

Quebrai o jugo, sinal da besta

sobre a terra. Destruí as cadeias!

Limpai a injustiça, a ignorância, a pobreza do mundo

com sangue generoso.

Companheiros, onde estejais, onde estejamos,

une-nos a alva dos escravos,

encontramo-nos acima da asa da troada,

no fogo flamejante e as espadas.

Irmấos nos campos de batalha,

nas fábricas, nas lombas e nos vales.

Concordados por pactos e princípios,

encontramo-nos antes do encontro.

VIII

Frente por frente da opressấo e a ignorância,

rebeldes somos sem repouso.

A luz somos do caminho,

a justiça e a fé,

somos fontes da luita*,

guardiões do fogar.

Ó Palestina, somos – bem o sabes-

construtores de civilizaçấo

encavalados nos séculos.

A nossa mensagem trazemos para os primeiros

e os últimos.

Com sangue livre purificamos a tua terra:

com tal oferenda, como nấo há ser pura?

Na nossa marcha os povos nos acompanham

para a alvorada gloriosa.

Um só mundo é a nossa insígnia

e uma eterna liberdade para os homens.

http://www.fatehmedia.ps/file/attachs/3781.jpg

9 Monte beira de al-Quds al-Charif (Jerusalém) onde residia o Alto Comissariado quando da colonização do Império Britânico.

10 Expressões de ânimo do exército islâmico quando conquistar Jerusalém (al-Quds) o ano 636.