ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVIII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVIII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVIII)

 

Murid al-Barghuti

مريد البرغوثي

Mourid Barghouti nasceu em 1944 numa aldeia próxima de Ramallah, Deir Ghassana, onde viveu até os sete anos. Depois, os pais se mudaram para Ramallah em busca de melhor educação para os filhos. Em 1963, ele foi para o Egito onde estudou literatura inglesa na Universidade do Cairo. Em 1967, com a ocupação israelense da Faixa de Gaza e Cisjordânia, ficou impedido de voltar.

Morou um tempo no Kuwait com um tio seu. Voltou para o Egito, de onde foi deportado por questões políticas em 1977. Viveu 17 anos longe da mulher e do filho, 12 deles em Budapeste. Em 1997, voltou a Ramallah graças a um acordo entre a Organização pola* Libertação da Palestina (OLP), grupo do qual fez parte, e o governo israelense.

Embora tenha se envolvido com questões políticas, o autor gosta dizer que não faz literatura politizada. “Eu não escrevo sobre sangue, rifles, nação e nem sequer sobre a palavra Palestina. Ainda assim, faço uma poesia que não poderia ter sido escrita por alguém da Dinamarca. A dor que temos dentro da gente aparece até mesmo quando se escreve sobre uma floresta ou sobre uma flor”, define Barghouti.

A confirmação de suas palavras está neste trecho do livro: “Finalmente! Aqui estou eu atravessando com minha maleta a ponte, que nada mais é que alguns metros de madeira e 30 anos de exílio. Como pode esse pedaço escuro de madeira distanciar uma comunidade inteira de seus sonhos?”.

Em 1998 recebeu o prémio Naguib Mahfud da Universidade Americana de O Cairo por seu livro “Ra’aytû Ramallah” (Eu vi Ramalah).

Fundamentos

Coca-cola, Chase Manhattan, General Motors,

Christian Dior, MacDonald, Shell,

Dynasty, Hilton Iternational, Sangam,

Kentucky Fried Chichken, gás lacrimogêneo,

matracas, polícia secreta.

Ibn Khaldun32 dissera:

Entre os árabes

estes são os fundamentos do Estado.

http://www.aljazeera.net/File/GetImageCustom/d2b41f34-ead6-41fe-a73a-24b64b615f2d/747/441

32 Abu Zaide Abdal Ramane ibne Maomé ibne Caldune Alhadrami (em árabeعبد الرحمن بن محمد بن خلدون الحضرمي; Túnis, 27 de maio de 1332 (Calendário musulmano 732) — O Cairo, 17 de março de 1406 (Calendário musulmano 808), mais conhecido como Ibn Khaldun foi um sábio polimata árabe, astrônomo, historiador, jurista islâmico, economista, matemático, estrategista militar, filósofo, cientista, estadista e nutricionista.

Documento Fundacional de Betanzos, por María Isabel Pereira

Fundación de Betanzos. Traslado ó Castro de Unta. Betanzos 13 de Febreiro de 1219.

 

“No nome do noso señor Xesucristo. Sexa coñecido de todos, tanto presentes coma futuros, que Eu Alfonso pola Graza de Deus Rei León e  Galiza,  mudo a Vila de Betanzos para o Castro de Unta a instancia e petición da mesma Vila. E porque o mesmo Castro era herdade do Mosteiro de Sobrado, dou e cedo en compensación da mesma herdade e para sempre a Vos Abade Señor Henrique e Comunidade do mesmo Mosteiro de Sobrado a cuarta parte de tódalas rendas e proveitos da mesma vila e que á mesma pertenzan tanto por mar coma por terra, para que libre e pacíficamente sen oposición algunas teñades vos e o mesmo Mosteiro a mesma cuarta parte por dereito de herdanza para que sempre coa metade de tódalas Capelas que na mesma vila sexan construídas, como aquello que tedes e máis libremente é da vosa propiedade.

E sáibase que Vos Abade e Comunidade de dito Mosteiro dádesme a min para a poboación de dita Vila o enriba dito Castro de Unta e tódalas demáis herdades que tedes a redor mesmo do Castro. A Saber: pola fonte que está na ribeira do río Mandeo á carón da ponte de Unta e de aquí enriba polo Val antigo e do outro lado polo camiño que chega ó voso Hórreo, excepto o mesmo límites do mesmo Castro coas preditas herdades, queda a un carón e ó outro os dous ríos.

Se alguén pois, tanto da nosa parte coma da estrana ousa actuar contra este feito noso e tenta infrinxir dalgún xeito esta nosa carta de concesión, incurra na ira de Deus todopoderoso e na indignación rexia e todo por canto usurpare sexa reposto por dobre cuantía ó abade e sucesores de dito Mosteiro e pola súa temeraria pague mil Marabetinos á parte rexia; e finalmente, con Datán e Abirón, a quenes tragou vivos a terra pague penas perpétuas no inferno; non obstante a carta permaneza sempre en vigor.

 

Dada a carta en Valencia, día 13 de Febreiro, Era M.C.L.L. sétima.

 

Eu O Señor Alfonso Rei corroboro esta carta que mandei facer e convalídoa co meu selo.

 

SELO DO ILUSTRE ALFONSO REI DE LEÓN E GALIZA.

 

Pedro IIII Arcebispo de Compostela

Ruderico Bispo de León

Lorenzo elexido de Ourense

Esteban Bispo de Tui

Ordoño Bispo de Lugo

Pedro III Bispo de Astorga

Martín Bispo de Zamora

Gonzalo Bispo de Salamanca

Lombardo Bispo de Ciudad (Rodrigo)

Conde Don Fernando Vasallo do Rei

Don Juan Fernández abanderado do señor Rei e teniente de Trastámara e Monterroso e Toronio

Don Velasco Gómez teniente de Montenegro

Don Martín Sánchez teniente de Limia e Sarria

Don Lorenzo Suárez maiordomo do Rei teniente de Extremadura

Don Fernando (non se ve) teniente de Sanabria e Benavente

Don Diego Froile teniente de Masilla e Castroterra

Pedro Pérez Arquidiácono Salmantino teniente da Chancelería. O mestre Miguel Notario do Señor Rei escribeu e confirmou.

 

Tradución do documento, extraído da páxina do Cronista Oficial de Betanzos, ó galego feita pola Vocalía de Cultura do Lar de Unta no 2018.

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVII), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVII)

Makhmud Darwish

محمود درويش

MUHAMMAD31

Acocorado nos braços de seu pai, é um pássaro temeroso
do inferno do céu: papai, ampara-me,
que saio voando, e as minhas asas são
pequenas demais para o vento… e está escuro.

Muhammad,
quer voltar a casa, não tem
bicicleta, também não tem uma camisa nova.
Quer se ir para fazer os trabalhos escolares
do quaderno de conjugação e gramática: leva-me
a casa, papá, que quero dispor a lição
e aniversários um por um…
na praia, sob a palmeira…
Que não se afaste tudo, que não se afaste…

Muhammad,
enfrenta-se a um exército, sem pedras nem
metralha, não escreve no muro: “A minha liberdade
não morrerá”, ainda não tem liberdade
para defender, nem um horizonte para a pomba
de Picasso. Nasce eternamente a criança
com o seu nome maldito.

Quantas vezes há renascer, criancinha
sem país, sem tempo para ser criança?
Onde sonhará se fica dormido…
se a terra é chaga e templo?

Muhammad,
olha a sua morte chegando inelutável, mas
lembra uma pantera que viu na televisão,
una grande pantera com uma pequena gazela encurralada; mas ao
cheirar de perto o leite
não se abalança,
como se o leite domara a fera da mata.
“Então -dize o raparigo- salvar-me-ei”.
E bota-se a chorar: “a minha vida é um esconderijo
no armário da cozinha de minha mãe, salvar-me-ei… abofé”.

Muhammad,
anjo pobre a curta distancia do
fuzil dum caçador de sangue frio. Um
por um a câmara espreita os movimentos do rapazinho,
que se funde com a sua imagem:
a sua cara, como a manhã, está clara,
claro o seu coração como una maçã,
claros os seus dez dedos como círios,
claro o orvalho nos seus calcões.
O seu caçador tinha que tê-lo pensado
duas vezes: deixar-no-ei até que saiba deletrear
essa Palestina sua sem se equivocar…
guardo-o em prenda
e já o matarei manhã, quando se revolte!

Muhammad,
um jesus pequeninho* dorme e sonha no
coração dum ícone
fabricado de cobre,
de madeira de oliveira,
e do espírito dum povo renovado.

Muhammad,
há mais sangue da que precisam os noticiários
e eles gostam dela: ascende já
para o sétimo céu,
Muhammad.

https://ep00.epimg.net/internacional/imagenes/2005/01/02/album/1104620401_910215_0000000005_album_normal.jpg

31 Poema publicado no jornal al-Quds o 21 e o 22 de Outubro de 2000. Interpreta as conhecidas, terríveis e nojentas imagens do assassinato em 30 de Setembro de 2000, do meninho* Muhammad al-Durra, crivado a tiros polos* soldados sionistas nos braços de seu pai.

Concello de Vilalba. Axenda cultural da semana

Axenda da semana:

_ Venres 20, dentro do “II ciclo de Música na Praza”, temos ás 20:30h Cuarteto de corda Castelao, na Praza Coronel Pena. (En caso de choiva no centro Cultural Recreativo).

__Sábado 21 ás 18:00h, continuamos co “Verán Activo”, este sábado temos a Javi Javichi con “Plato, platito, platete”, espectáculo de malabares, circo e clown.

_Sábado 21 ás 23:00h, continuamos coa mostra de verán Teatronoite coa obra “Maniféstate!!” da compañía Andaravía Teatro (A. C

. Papaventos), na Praza da Constitución. (En caso de choiva no Auditorio Carmen Estévez).

 

 

_ Domingo 22, “Festival Internacional de Folclore” coa participación de grupos de música e baile tradicional de catro países e coa participación de grupos de música tradicional do municipio.

Ás 19:30h participarán nun desfile con saída da Praza da Constitución que pasará polas rúas Basanta Silva e rúa da Pravia cunha comitiva de arredor de 300 persoas.

Ás oito comezará o festival na Praza da Constitución, e en caso de que o tempo non acompañe, as actuacións trasládanse ao auditorio municipal Carmen Estévez.

 

 

 

SALA DE EXPOSICIÓNS AUDITORIO

__14 de xullo ao 20 de agosto, IESCHA. Debuxos “Só lapis” de Jesús Trastoy.

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVI), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVI), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXVI)

Makhmud Darwish

محمود درويش

Penúltimo discurso do índio perante o homem branco

Morto, dixem?: Nấo há morte.

Só uma muda de mundos.

Seattle.

Chefe dos Duwamich.

I.

Assim, somos os que somos no Mississipi. Possuímos o que nos resta de ontem,

mas a cor do céu mudou e o mar polo* Leste

também. Ó senhor dos brancos, senhor dos cavalos, que é o que queres

dos que vão de caminho para as árvores da noite?

Elevada é a nossa alma e sagrados os pastos. E as estrelas

são palavras que alumiam. Esquadrinha-os e a nossa história cabal lerás:

aqui nascemos, entre água e fogo, e de aqui a um nada renasceremos nas nuvens

beira da costa azulada.

No mates mais a erva. Uma alma possui que em nós defende

a alma da terra. Ó senhor dos cavalos, ensina o teu corcel para que pregue perdo

à alma da natureza polo* que tens feito às nossas árvores.

Árvore, irm.

Fizeram-te padecer tanto como a mim.

No rogues comiseraço

Polo* lenhador de minha me e da tua.

II.

O chefe branco compreenderá as velhas palavras

aqui, nas almas em liberdade entre o céu e as árvores.

É um direito de Colombo a liberdade de topar índios em qualquer mar.

Direito seu é chamar os nossos espectros pimenta ou índios.

Pode quebrar a bússola do mar para que se endireite

e confundir ao vento do Norte, mas no crê que os humanos

são semelhantes, como o ar e a água, além do reino dos mapas,

que como se nasce em Barcelona, nascem, mas em todas as cousas adoram

ao deus da natureza e no o ouro.

E Colombo, o livre, procura uma linguagem que cá no achou,

ouro procura nos crânios dos nossos bondosos avôs

e conseguiu o que desejava dos vivos e dos mortos

Porque é que desde o seu sepulcro prossegue a eterna guerra de extermínio

e de nós nấo restam mais que as galas para a ruína e a plumagem leve sobre

os vestidos dos lagos? Setenta milhões de corações arrebentados abundarão

para que voltem da nossa morte, como um rei, sobre o sólio do tempo novo?

Nấo chegou o momento, estrangeiro, de encontrarmo-nos como estranhos num mesmo [tempo,

num mesmo país, como rente dum abismo se encontram os estranhos?

Para nós o que nos pertence e a vossa porçấo do céu.

Para vós o que vos pertence e a nossa parte de ar e água.

A nossa parte de calhaus para nós e para vós a vossa de ferro.

Vem para repartirmo-nos a luz na força da sombra. Elege o que desejar

da noite e deixa-nos duas estrelas para que enterremos os nossos mortos no firmamento.

Apanha do mar o que desejares e deixa-nos duas ondas para pescar.

Colhe o ouro da terra e do sol e deixa-nos a terra dos nossos nomes.

Volta com a tua gente, estrangeiro, e procura as Índias.

III.

Árvores modeladas da palavra do deus são os nossos nomes e pássaros que voam mais [alto

que os fuziles. No fendas as árvores do nome, vós que vindes

em guerra desde o mar. E no lanceis os vossos cavalos como archotes polas* planícies.

Vós tendes o vosso deus e as vossas crenças e nós os nossos.

De Ele no façais um porteiro no palácio do rei.

Apanhai as rosas dos sonhos nossos para olhar a alegria que vemos nós.

Dormi à sombra dos nossos sabugueiros para voar como as pombas,

como os nossos bondosos avôs antes de voltar em paz voaram.

Há-vos faltar, brancos, a lembrança da viagem polo* Mediterrâneo,

há-vos faltar a solidão da eternidade num bosque que no assoma ao abismo,

há-vos faltar a sabedoria das desgraças e uma derrota nas guerras,

há-vos faltar uma rocha que se resiste ao fluxo do veloz rio do tempo,

há-vos faltar uma hora para a contemplaço de qualquer cousa, para que amadureça em [vós

um céu indispensável para a terra, uma hora para duvidar entre dous

caminhos. Um dia há-vos faltar Eurípides e os poemas de Canaã e os babilônios.

Hão-vos faltar

as cantigas de Salomo a Shulamite, a açucena da saudade.

Há-vos faltar, brancos, uma lembrança que adestre os cavalos da loucura

e um coraço que esfregue as rochas para que o brunissem na chamada dos violinos.

Falhar-vos-á uma trégua com os espectros nossos nas infecundas noites do inverno,

um sol menos aceso, uma lua menos cheia para que o crime apareça

menos majestoso na pantalha. Tomai o vosso tempo

para matar a Deus.

IV.

Nós sabemos o que encobre esta eloqüente ambigüidade

um céu que do nosso se pendura e fadiga a alma, um sabugueiro

que sobre os passos do vento anda, uma fera que erige um reino nos

buracos da atmosfera ferida e um mar que a madeira das nossas portas salga.

A terra no era mais pesada antes da criaço, mas

nós o soubemos antes de tempo. Os ventos hão nos contar

a origem nossa e o fim, mas hoje tiramos o sangue ao nosso presente

e soterramos os nossos dias na cinza dos mitos. Atenas no é para nós.

Conhecemos os nossos dias polo* fumo do lugar e Atenas no é para nós.

Estamos informados do que o senhor metal nos reserva

e reserva aos deuses que no protegem o sal do nosso po.

Sabemos que a verdade é mais forte do que a injustiça, que os tempos

mudaram desde que mudaram as armas. Quem alçará as nossas vozes

para uma chúvia seca nas nuvens? Quem limpará os nossos costumes

do fragor dos metais? «Anunciamos a boa nova da civilizaço», dissera o estrangeiro,

«Eu sou o senhor do tempo que veio para herdar a terra vossa.

Passai perante mim para que vos conte, cadáver a cadáver, sobre a superfície do lago»

«Anúncio-vos a boa nova da civilizaço» o estrangeiro dissera. «Que vivam os [Evangelhos. Passai

para que reste só a divindade para mim. Os índios mortos so melhores

que os vivos para o nosso Senhor dos céus. Deus é branco

e branco é este dia. Vós tendes um mundo e outro nós».

O estrangeiro pronúncia extravagantes palavras e esburaca na terra um poço

para soterrar o céu. Estranhas palavras o estrangeiro pronúncia

e caça às nossas crianças e às borboletas. Que é o que prometeste ao nosso jardim, [estrangeiro?

Rosas de zinco mais lindas que as nossas? A tua vontade seja

mas, sabes por ventura que a gazela no pasta a erva se o nosso sangue a roça?

Sabes que os búfalos e as plantas os nossos irmos so, estrangeiro?

No esburaques mais a terra. No firas a tartaruga,

nas suas costas dorme a terra, a nossa terra me, as nossas árvores so a sua cabeleira

e as suas flores os nossos enfeites. «No há morte nesta terra».

No perturbes a fragilidade da sua constituiço, no quebres os espelhos,

no amedrontes nem dor motives à terra: os nossos rios so a sua cintura

e todos, vós-outros e nós-outros, somos os seus filhos. No lhe tireis a vida.

De aí a pouco poremo-nos de caminho. Tomai o nosso sangue e deixai-a

tal qual é:

O mais lindo que escreveu Deus sobre as águas

para Ele e para nós.

Ouviremos atentamente as vozes dos nossos avôs nos ventos e escuitaremos

latejos nos botões das nossas árvores. Esta terra é a nossa me,

toda ela santa, pedra por pedra. Esta terra é uma cabana

para os deuses que com nós moraram, estrela por estrela, e que para nós alumiaram

as noites da prece. Temos caminhado descalços para apalpar a alma dos seixos

e andado despidos para que a alma do ar nos cobra com mulheres

que nos devolvam os presentes da natureza. A nossa história era a sua e o tempo tinha

um tempo para nascermos nela e para retornar dela para ela, restituindo à terra as [suas almas

aos poucos. Custodiamos nas jarras a lembrança dos que amamos

com o sal e o azeite. Penduramos os seus nomes nos pássaros dos regatos.

Éramos os primeiros. No havia lousado* entre o céu e o azul das nossas portas.

Nenhum cavalo pastava a erva das nossas gazelas nas pradarias. Estrangeiro nenhum

as noites das nossas mulheres trespassava. Deixai a flauta ao vento, que chore

polo povo deste lugar ferido que amanhã há chorar por nós.

Amanhã por nós chorará.

V.

Ao nos despedir das nossas lareiras no devolvemos a saudaço. No nos ordeneis

os mandamentos do novo deus, deus do ferro, e no pedais

um pacto de paz aos mortos. No resta nem um de vós

para anunciar-vos a paz de si para si e com os outros. Lá

mais teríamos vivido se no houvesse sido polas* espingardas inglesas, o vinho francês e [as febres.

Como há que viver vivíamos, na companhia do povo da gazela.

Cuidadosamente guardamos a nossa história oral e entregávamos as boas novas com inocência e margaridas.

Vós tendes o vosso deus e nós o nosso, vós tendes o vosso passado e o nosso nós. O [tempo

é o rio, e se reparamos no rio, em nós o tempo chora.

No lembrais um pouco de poesia para deter o morticínio?

No nascestes de mulheres? No mamastes, como nós,

O leite da saudade? No pusestes, como nós, asas

para vos unir à andorinha? Nós anunciamos a primavera. No tireis da bainha as armas.

Ainda poderíamos cambiar algumas dádivas e algumas cantigas.

Aí estava o meu povo. Aí jaz meu povo. Aí estão os castanheiros

que escondem as almas do meu povo. Meu povo há retornar em ar, luz e água.

Conquistai a terra da minha me pola* espada, mas no assinarei

o pacto entre a vítima e o seu assassino. No assinarei

a venda dum palmo de espinheiro em redor dos campos de milho.

Sei que me despeço do último sol, que me envolvo no meu nome

e caio no rio. Sei que retorno ao coraço da minha me

para seres tu admitido no teu século, senhor dos brancos. Ergue sobre o meu cadáver

as estátuas duma liberdade que no devolve a saudaço e cava a cruz de ferro

na minha sombra de pedra. Montarei devagar aos cimos do canto,

ao hino do suicídio das comunidades na ocasio em que acompanhem a sua História à [distância.

Ceibarei* nelas aos pássaros das nossas vozes. Venceram aqui os estrangeiros

sobre o sal. O mar misturou-se com as nuvens. Venceram os estrangeiros

em nós à casca do trigo e dilataram as linhas do telégrafo e a corrente eléctrica.

Aqui o falco suicidara-se de tristeza. Venceram-nos aqui os estrangeiros

e nada restou em nós no tempo novo.

Evaporam-se aqui os nossos corpos, nuvem por nuvem, no espaço.

Aqui cintilam as nossas almas, estrela a estrela, no espaço do canto.

VI.

Decorrerá um longo tempo antes que o nosso presente em passado se converta, como [nós.

Haveremos marchar primeiramente para a nossa morte. Defenderemos as árvores que nos [cobrem

e o sino da morte. Uma lua que desejamos no alto das nossas cabanas defenderemos

e o aturdimento das nossas gazelas. A argila da nossa cerâmica defenderemos

e o nosso plumo na asa das derradeiras cantigas. De aqui a um bocado

edificareis o vosso mundo acima do nosso. Projectareis o caminho dos nossos túmulos

em direcço à lua artificial. Este é o tempo das indústrias,

o tempo dos metais. O champanha dos poderosos nasce do carvo.

Há mortes e colônias, mortos e calcadores, mortos

e hospitais, mortos e radares que vigiam os mortos

que mais uma vez morrem na vida e mortos

que após a morte sobrevivem, mortos que ao monstro das civilizações ensinam a morte

e mortos que morrem para transportar a terra sobre os restos.

Ó, senhor dos brancos, para onde levas o meu povo e o teu?

Rumo a que abismo leva à terra este robote armado até os dentes de aviões

e porta-aviões? Em direcço que muito extenso abismo vos elevais?

Tudo o que desejeis vosso é: a nova Roma, a Esparta da tecnologia

e

a ideologia da loucura.

E nós, fugiremos dum tempo para o que no preparamos ainda a nossa ideia.

caminharemos para a pátria do pássaro, como uma bandada humana de precursores.

Olharemos a nossa terra desde os calhaus da nossa terra, desde os furados das nuvens,

Olharemos a nossa terra desde as palavras das estrelas. Olharemos a nossa terra

desde o ar dos lagos, desde a penugem do tenro milho, desde

a flor das campas, desde as folhas do álamo, desde todo

quanto vos assedia, brancos, mortos que falecem, mortos

vivos, mortos que voltam à vida, mortos que espalham o segredo.

Outorgai um prazo à terra para que diga a verdade, toda a verdade

sobre vós

e sobre nós,

sobre nós

e sobre vós.

VII.

Há mortos que adormecem nos quartos que edificareis,

há mortos que visitam o seu passado nos lugares que demolis,

há mortos que passam sobre as pontes que tendes de construir,

há mortos que aclaram a noite das borboletas, mortos

que chegam à alvorada para tomar o chá convosco, tão tranquilos

como os deixaram os vossos fuziles. Consenti, convidados do lugar,

alguns escanos livres aos convidados para que vos leiam

as cláusulas da paz com os mortos.

http://www.n-dawa.com/imagebig/717ddeea4c27eb0764ad954fe087e9e8.jpg

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXV), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXV), por André Da Ponte

ANTOLOGIA POESIA PALESTINA MODERNA (XXV)

Makhmud Darwish

محمود درويش

Testemunho de Bertolt Brecht perante o tribunal militar

Senhor juiz:

eu no sou um soldado,

que é o que de mim quer?

Nada tenho a ver com o que assevera o tribunal.

O passado se passou com pressa…

sem ouvidos me prestar.

A guerra, caminho da taberna passou para colher alento…

Os seus pilotos sos e salvos tornaram

e o céu quebrou-se na minha língua. Senhor

juiz – e isto bem que me toca-

os guardas seus escapam com o meu céu…

ao meu coraço assomam e atiram cascas de banana

ao poço. À carreira passam diante dos meus narizes

e dizem-me: boa tarde – bem que no sempre-

e metem-se no curral da minha casa… como se nada.

Adormecem no cimo da nuvem de meu sonho… como se tal cousa.

As minhas palavras dizem

no meu nome

na minha janela, ao vero que ressumbra de jasmim,

e volvem tirar meu sonho

no meu nome.

Choram polos* meus olhos os meus velhos salmos da saudade

e, como eu cantei, à oliveira e à figueira cantam,

às partes e ao todo com uma lógica secreta.

A minha vida vivem com todo o prazer,

no meu nome,

e vadiam levando em riste o meu apelido…

E eu, senhoria, aqui estou,

perante o tribunal do passado, prisioneiro

duma guerra passada. Os seus oficiais voltaram sos e salvos

e as videiras procriaram na minha língua. Senhor

juiz – e isto bem que me toca – ainda que

a cela me afogasse, deu-me ar a terra toda.

Mas os seus guardas raivosos bisbilhotam as minhas palavras,

e bradam a Akhab e a Jezabel: em pé, herdade

a muito estimada vinha de Nabot29!

Dizem: Deus nos pertence

e a terra de Deus

a ninguém mais pertence!

Que é o que lhe pede, senhoria,

a um passageiro qualquer?

Num país onde a batalha reclama

das suas vítimas uma elegia aos galões!

Chegou o tempo de gritar

e libertar a minha voz da máscara da palavra:

isto é uma cela, senhoria, no um tribunal

e eu julgo e testemunho. Você é o acusado agora,

renuncie à sua cadeira e parta: é livre você, livre,

cativo Senhor juiz.

Os seus pilotos sos e salvos tornaram

e o céu quebrou-se na minha língua primeira

-e isto bem que me toca – para que voltem

os nossos mortos– sos e salvos.

29 Na história bíblica relata-se a maldição que caiu sobre o ímpio rei de Israel Akhab (874/73-853 a. de C.) e a sua linhagem por causa da conspiração de Jezabel, mulher do rei, para assassinar Nabot e roubar-lhe de tal modo a vinha que se negara a vender ao rei por ser um herdo dos seus [Livro Primeiro dos Reis 21, A Bíblia, págs. 370-371, SEPT, 2ª edição, Vigo, 1992]. Também: Oeming M., Nabot, der Jesreeliter, ZAW 98 (1986) 362-382.