Um soneto de Francesco Petrarca traduzido para galego-português por André Da Ponte

Um soneto de Francesco Petrarca traduzido para galego-português por André Da Ponte

UM SONETO DE FRANCESCO PETRARCA TRADUZIDO PARA GALEGO-PORTUGUÊS

CCXCII

Os olhos que eu cantei tão vivamente,

e os braços, mãos e pés e o doce viso

que me tinham tão fora do meu siso

fazendo-me distinto da outra gente;

 

Os caracóis, puro ouro reluzente,

e o tão claro e angélico sorriso,

que tornavam o mundo um paraíso,

apenas já são pó que nada sente;

 

E, vivo ainda eu, sofro e desdenho,

pois fico sem o lume que amei tanto,

em grã fortuna e desarmado lenho.

 

Finda hoje aqui o meu amante canto:

seca está a fonte de que fui engenho

e a minha cítara mudada em pranto.

 

Francesco Petrarca (Arezzo, 20 de julho de 1304 – Arquià, 19 de julho de 1374)

 

Il Canzoniere Rerum vulgarium fragmenta

 

CCXCII

 

Gli occhi di ch’io parlai sí caldamente,
et le braccia et le mani et i piedi e ’l viso,
che m’avean sí da me stesso diviso,
et fatto singular da l’altra gente;

le crespe chiome d’òr puro lucente
e ’l lampeggiar de l’angelico riso,
che solean fare in terra un paradiso,
poca polvere son, che nulla sente.

Et io pur vivo, onde mi doglio et sdegno,
rimaso senza ’l lume ch’amai tanto,
in gran fortuna e ’n disarmato legno.

Or sia qui fine al mio amoroso canto:
secca è la vena de l’usato ingegno,
et la cetera mia rivolta in pianto.

 

 

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/b/bd/Francesco_Petrarca..jpg

 

OS DOZE do grande poeta russo Alexandr Blok vertido para o galego-português por André Da Ponte

TRADUÇÃO DO POEMA “OS DOZE” DE ALEKSANDR BLOK E ALGUNS APONTAMENTOS SOBRE A SUA BIOGRAFIA

Aleksandr Aleksandrovitch Blok (em russo Алекса́ндр Алекса́ндрович Блок; São Pertersburgo, 28 de novembro (jul.) de 1880 – Petrogrado, 7 de agosto de 1921) foi um dos mais grandes poetas do século XX.

O pai do poeta, Alexandr Lvovich Blok (1852-1909) foi advogado e professor na Universidade de Varsóvia e procedia duma família nobre (o irmão do pai, Ivan Lvovich, foi um proeminente estatista russo).

A mãe, Alexandra Andreevna (nascida Bekelova), (1860-1923), era filha do reitor da Universidade de São Petersburgo, um ilustre botânico, Andrei Nikolaevich Beketov (26 de noviembre (8 de dezembro) de 1825 – 1 (14) de julho de 1902).

O matrimónio entre os pais do poeta pouco tempo durou após o nascimento de Alexandr pois ela cessou o relacionamento com o esposo e nunca mais o renovou. Em 1889 obteve a licença de dissolução do casal do Sínodo da Igreja Ortodoxa Russa e ela casou com o oficial da guarda Franz Feliksovich Kublitsky-Piotukh (1860-1920).

Alexandr passou a viver com sua mãe e o padastro no quartel do Regimento de Granadeiros de Vida ( guardas da unidade militar de infantaria do exército imperial russo) que se encontra na periferia de São Petersburgo, nas ourelas do rio Grande Nevka (o primeiro ramal do delta do rio Neva).

Em 1889 foi enviado para estudar no gimnásio Vvedensky e em 1897 viajou com sua mãe para a cidade balneário alemã de Bad Nauheim. Foi ali onde encontrou o seu primeiro amor, Xenia Sadouskaya que marcou profundamente a sua obra poetica. Nesse mesmo ano acudiu ao funeral do poeta, filósofo e pensador religioso Vladimir Soloviov.

Em 1898 graduou-se no gimnásio e esse mesmo ano conhece a quem vai ser o grande amor da sua vida, Lyuba Blok , quando solteria Mendeleev (São Petersburgo, 29 de dezembro de 1881 – Leninegrado (URSS), 27 de setembro de 1919). Ela era filha do genial químico – o pai da Tabela periódica dos elementos químicos, prevendo as propriedades de elementos que ainda não tinham sido descobertos – Dmitri Ivanovich Mendeleev, em russo: Дми́трий Ива́нович Менделе́ев, (Tobolsk, 8 de fevereiro de 1834 – São Petersburgo, 2 de fevereiro de 1907). Em agosto desse mesmo ano, 1898 foi para a Universidade de São Petersburgo para estudar na Faculdade de Direito, porém, três anos depois mudou-se para o departamento eslavo-russo da Faculdade de História e Filologia, onde se graduou em 1906. Foi na Universidade que conhece e entrelaça amizades com o poeta e tradutor russo (depois soviético) Sergei Mitrofanovich Gorodetsky (São Petersburgo, Império russo, 5 (17) de janeiro de 1884 – Obninsk, URSS, 7 de junho de 1967) e o escritor Alexei Mikhailovich Remizov ( Moscovo, 24 de junio (6 de julho) de 1877 – Paris, 26 de novembro de 1957) . Foi também por estas datas que um primo segundo do poeta, Sergei Mikhailovich Solovyov (Moscovo, 13 (25) de outubro de 1842 – Kazán, URSS, 2 de março de 1942), neto do historiador Soloviev, de A.G. Kovalensky e sobinho do filósofo Vladimir Soloviev, vai se converter no amigo mais íntimo que nunca tivo o grande poeta. 

Desde a sua infância, Alexandr Block passava os verãos na finca de Shakhmatovo, perto de Moscovo, onde a 8 km estava a propriedade Boblovo, propriedade do grande químico Dmitri Mendeleyev. Com 16 anos debutou como actor num teatro de São Petersburgo e, ainda que o poeta tinha apego polos cenários, após a primeira estrea, nunca mais lhe deram papeis no teatro.

Em 1903 Aleksandr Blok casou com Lyubov Mendeleeva, filha como já temos expecificado, do genial Mendeleyev, e heroína do seu primeiro livro de poesia, Versos sobre a Fermosa Senhora. Sabe-se que o grande poeta sentia profundos e fortes sentimentos pola sua esposa, mas também, uma miga voluptuoso, também é conhecido que manteve periodicamente contatos com outras mulheres como a actriz Natalia Volokhova e com a cantante de ópera Lyubov Andreeva-Delmas. Foi com este baseamento que o poeta, romancista e dramaturgo Andrey Bely, uma das principais figuras da literatura do simbolismo russo e do modernismo em geral, escreveu a obra “O espectáculo das marionetas”. E ainda que Bely sempre considerou o enamoramento do poeta com a sua esposa como muuito forte, não obstante também não negou as veleidades do nosso poeta.

Em 1909 dous acontecimentos lutuosos ensombreceram a vida da família Blok, o filho do casal morreu e faleceu, também, o pai de Blok. Com este motivo o matrimónio viaja para Itália e Alemanha e une-se aos membros de uma sociedade literária chamada Academia onde faziam parte Valery Briusov, Mikhail Kuzmin, Vyacheslav Ivanov e Innokenty Annensky.

No verão de 1911, viaja mais outra vez polo estrangeiro, desta vez pola França, a Bélgica e a Holanda (Alexandr Alesandrovich Blok sempre evalou como muito negativos os costumes dos franceses. Vamos, que nunca gustou dos franceses. “Um homem que se prezar nunca se estabeleceria na França”, chegou a escrever). Ainda assim tem de voltar para a França em 1913, desta volta por prescripção médica (e torna a escrever mal sobre os franceses, as francesas, os seus costumes e culinária).

No intermédio escreve um drama “A rosa e a cruz” baseado na procura do conhecimento secreto do trovador provenzal Bertrand de Born. Ainda que a obra, acabada em janeiro de 1913, era do gosto de Stanislavsky e de Nemrovich-Danchenko, nunca se levou à cena.

Em 7 de julho de 1916, o poeta é chamado para a guerra e inscrito no regimento de engenharia de União Zemsky de Toda Rússia. O poeta fez o serviço na Bielorrúsia e, conforme a uma carta que lhe remeteu a sua mãe durante a guerra só teve dous interesses: o catering e os cavalos.

A Grande Revolução de Outubro de 1917 foi recibida com entusiasmo polo genial poeta e, de facto, foi eleito para numerosos cargos das organizações e comités do novo poder dos obreiros e campesninos.

Em janeiro de 1921, Blok, por causa do 84º aniversário da morte de Pushkin, pronunciu um memorável discurso na Casa dos Escritores com o título “Sobre o nomeamento do poeta”.

O intenso trabalho minou a frágil saude do poeta e o 7 de agosto de 1921 faleceu no último apartamento que teve em Petrogrado devido à inflamação das válvulas cardíacas. Apenas chegara aos 41 anos de vida.

Alexandr Blok foi enterrado no campo-santo ortodoxo de Smolensk, em Petrogrado, junto das famílias dos Beketovs e Kachalovs e a sua avô Ariadna Alexandrova. O funeral foi oficiado polo Arquipestre Alexei Zapadalov em 10 de agosto (28 de julho segundo o calendário antigo russo), o dia da celebração do ícone de Smolensk da Mãe de Deus, na igreja da Resurreição de Cristo.

Em 1944 as cinzas do grande poeta foram transladadas para As Pontes Literárias no Cemitério de Volkovsky em São Petersburgo (na altura Leninegrado) – onde estão enterradas tantas grandes personalidades do mundo cultural, científico e mesmo militar russas [O campo-santo de Volkovsky fora inaugurado com o enterramento do escritor do século XIX Alexandr Radishchev, autor dum célebre livro: “Viagens de São Petersburgo até Moscovo”.]

O poema, que traduzo abaixo, e coloco no seu original em russo foi escrito em janeiro de 1918, quase um ano após a Revolução de Fevereiro e apenas dous meses depois da Grande Revolução de Outubro.

BIBLIOGRAFIA EMPREGADA:

 

– «Стихи о прекрасной даме».— М.: «Гриф», 1905 г. Обложка П. А. Метцгер.

Poemas sobre uma bela dama”. – M .: “Pena”, 1905 Portada P.A. Metzger.

– «Двенадцать». — София: Российско-болгарское книгоиздательство, 1920

“Os Doce”.- Sofía: publicación de libros ruso-búlgaros, 1920

– Собрание сочинений в шести томах. Т. 1—6. — М.: ТЕРРА, 2009

Obras recopiladas em seis volumes. T. 1-6.- Moscovo: TERRA, 2009

– Белинков А. В, Михайлов О. Н. Блок А.. // Краткая литературная энциклопедия — М.: Советская энциклопедия, 1962. — Т. 1. — С. 642–645.

Belinkov A. V. , Mikhailov O.N. // Uma breve enciclopédia literária – Moscovo: Encilopédia Soviética, 1962. – T. 1. – P. 642-645.

– Orlov V. N. Gamayun, A vida de Aleksandr Blok, Editorial Escriitor Soviético, Leninegrado, 1978 – 710 páginas.

– BLOK (entrada de R. Crippa), Diccionário Bompiani de Autores Literários, Vol 1, Editorial Planeta-Agostini, Barcelona, 1987, páginas 322-323.

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OS DOZE

I

Entardecer negro.

Branca neve.

Vento, vento!

O homem não pode, de pé, sustentar-se,

Vento, vento!

Que vai polo mundo de Deus todo inteiro!

Redemoinha o vento

a branca neve.

Há geo sob a neve leve.

Esbarrão. Um brado.

Quem a andar se atreve

escorre na rua… Ai, que pobrezinho!

Entre duas casas frente a frente,

deitada há uma corda;

na corda, um cartaz;

Todo o poder para as Constituintes”

Lagrimeja uma velha e não replica.

Não entende o que isso significa.

Para que tão grande cartaz?

Que enorme tela!

Quantas saias poderiam se fazer com ela!

E os pés aos pequenos se lhes congelam…

assustadíssima, a velha

salta um monte de neve como galinha que espreita.

– Ai, Virgem Santíssima!

– Ai, estes bolcheviques ao ataude nos atiram!

Vento que talha como gadanhas.

Frio ao compasso de tudo isso.

Um burguês em cruze de duas ruas,

mete o nariz no pescoço.

Quem é este? Grenhas longas.

Se aletarga a sua voz:

-Traidores! Que horror!

– Morreu a Rússia sem decoro!

Seguramente um escritor,

um bico de ouro.

E eis, um homem que de saias viste,

oculta-se na neve que lhe faz de topo.

Porque hoje andas triste,

pope camarada?

Lembras-te como antes

ias de pança adiantada,

e a cruz encima, tornava brilhante

a barriga inchada?

Uma dama de astracã caracolada

achega-se outra, apenada,

-Quanto temos carpido, chorado…

Cai resvalando,

e – pum! – fica tumbada.

Ai! Ai!

Dá-me a mão, carai!

O alegre vento

alegra-se cruel,

move as longas saias,

sega quem transita.

Racha, abala, agita

esse grande cartaz:

Todo o poder para as Constituintes”

e estas frases clama:

também se reuniram as nossas gentes…

no local de enfrente…

Discutimos,

resolvemos:

Por um tempo, dez rublos; por dormida, vinte pedir.

E de ninguém receber menos…

Vamos dormir…

A tarde caindo.

A gente acovilha-se.

Apenas um vagabundo

os ombros encolhe.

Assobios do vento…

Ei, pobretão, trota mundos!

Vem para a minha casa,

nos abraçaremos…

Pão!

Que espera quem se atrasa?

Passa!

Negros, negros os céus estão.

Ânimo irado, triste cólera, raiva.

O peito se abrassa.

Raiva negra, fúria, santa raiva.

Camarada, de quatro olhos

vigila sem taxa!

II

Passeia o vento, a neve voa.

Os doze homens andam em vela.

Negras correagens dos fuziles,

e em volta deles há luzes a milhares.

Entre os dentes, um charuto;

marca merecem levar os patifes.

Liberdade, liberdade.

Ai, ai, sem cruz ao peito vão!

Tra-ta-ta!

Frio faz, camarada, frio já!

– Com Katka está Vanhka numa má taberna.

– Dinheiro no carpim leva na carteira.

– Vaniuska já é rico, tinha-o sonhado.

– Era dos nossos, tornou-se agora soldado.

– Ai, Vanhka, burguês, ai, filho de cadela,

se a minha Katka beijas, o baque não erra!

Liberdade, liberdade.

Ai, ai, sem cruz ao peito vão!

Katka com Vanhka ocupada está,

Em quê minha querida ocupada estará!

Tra-ta-ta!

E em volta há luzes a milhares…

Nos ombros, fuzis com correagens…

Mais forte o teu passo revolucionário,

que está o inimigo perto e temerário!

Aguenta, camarada, o teu fuzil sem medo.

À Santa Rússia uma bala lancemos,

a do passado,

à das isbas, a esse que chamamos

de cu pesado.

Ai, ai, sem cruz ao peito vão!

III

Assim foram os nossos rapazes

para servir na guarda vermelha,

para servir na guarda vermelha,

e perder as suas loucas cabeças.

Ai, tu, pena em cadeia,

doce vida que tiro;

desgarrada guerreira,

fuzil austríaco!

Para os burgueses podam todos penarem,

o fogo do mundo vamos soprar,

Incêndio do mundo que em sangue nasceu,

Dá-nos, Senhor, a tua benção!

IV

Redemoinhos de neve, grita o cocheiro,

Vanhka com Katka voa no trenó.

E levam os varais

farolzinho elétrico.

Eh, arre, arre!

Leva um capacetinho roto de soldado,

a sua cara é de tolo de todo, de parvo.

Alisa-se, alisa-se o seu negro bigode;

alisa e recreia,

brinca.

Eis a Vanhka, o dos ombros de carrega.

Eis a Vanhka, o dos contos longos.

Abraça sua Katka, a muito paspalha,

a engana…

Ela a cabeça para atrás vai colocar,

e os seus dentinhos como perlas brilham…

Ai, Kátia, Kátia minha,

cara grossinha!

V

Ainda ao teu pescoço, Kátia,

tens de uma navalha o carimbo.

Abaixo de teu peito, Kátia,

ainda recente tens uma rabunhada.

Ei, ei, dança bem!

Que lindos são os teus pés!

Roupinha de encaixe levavas:

Põe-nas agora que eu as veja!

Com oficiais pavoneavas;

pavoneia, agora, pavoneia!

Ei, ei, pavoneia!

De súbito, o coração volteia.

Lembras-te do oficial aquele?

Nada houve que o salvasse…

não lembras, má chispa, dele?

Ou não fica a tua memória clara?

Ei, ei, fazei-a mais clara!

Deita-te com ele, juntai a cara!

Levavas polainas e anéis nas orelhas,

engolias chocolate afamado.

Ias passear com os cadetes,

agora passeias com os soldados?

Ei, ei, peca sem calma,

será um alívio para a tua alma!

VI

…Voando, achega-se o cocheiro à dianteira.

Voa, vocifera, grita…

Alto! Alto! Marela, ajuda, não te escondas.

Por trás, Loira, corre!

Tra-ta-ta-ta-ta!

Poeirinha de neve para o céu vai.

Vanhka quer fugir com o cocheiro…

Ergue mais outra vez teu gatilho ligeiro!

Tra-ta-ta-ta! Havemos nós de te ensinar

para onde te leva com a rapaza de outros farrear…

Fugiu o canalha! Já hás ver, eu te digo,

como amanhã acabarei contigo.

Aonde está Kátia? Morta, morta a deixou.

A sua cabeça uma bala atravessou!

Contente, Kátia? Cala, cala, nada se move!…

Fica, como carronha, acá, sobre a neve!

Mais forte, teu passo, revolucionário,

que está o inimigo perto e temerário!

VII

Mais outra vez vão os doze,

sobre os ombros portam fuzilitos.

E só ao desgraçado assassino

não se lhe enxerga a cara de contrito.

Mais rápido o arquejo,

os passos acelera ao afastar-se.

Um pano envolve ao pescoço.

Não pode sossegar-se.

– Porquê, estás , camarada, assim aflito?

– Porquê, amiguinho, o medo te condena?

– Porquê, Pedrinho, andas cabisbaixo?

– É que Katka te dá lástima ou pena?

– Meus bons camaradas destas horas!

Eu essa rapariga queria…

Noites embriagantes

passei junto dela noutros dias…

Pola força arrogante dos seus olhos

como de lume feitos;

por aquele lunar vermelho

junto ao seu ombro direito,

eu matei, homem fraco;

perdia-a num instante de despeito;

-Como nos maça este maldito!

Talvez, Pétia, és uma mulher?

– É que desejas tirar tua alma num grito

para nos deixá-la ver?

– Tua altivez mantém de soldadinho!

– E dominar-te, isso é o que tens de fazer!

– Não, não, é esta a hora

de mimos de babá,

porque uma carrega agora

mais grande, camarada, nos aguarda!

E já Pedrinho dá

mais lentos os seus passos…

A cabecinha eleva,

e mais outra vez alegra…

Ei, ei,

não é pecado mortal se é que se brinca!

Fechai as casas,

que hoje há haver saques sem taxa!

Abri as adegas,

hoje brinca a gente inquieta!

VIII

Ai, tu, pena em cadeia,

nojo tenebroso

de morte!

Oh, que bem o tempinho

passarei, passarei eu!…

Oh, que bem a coroa

ranharei, cuspirei eu!…

Oh, que bem do girassol a casca

cuspirei, cuspirei eu!…

voa tu, burguês, como um pardalzinho!

Beberei sangue,

por essa amiguinha

de celhas negrinhas…

Requiescat in pace, a alma, Senhor, da tua serva…

Que náusea!

IX

Não se ouve ruido algum na cidade.

Um silêncio grave chegou sobre o Nevá.

Nenhum guarda há já.

Fazei brincadeiras, rapazes, e sem vinho!

Num entroncamento está o burguês;

o seu nariz no pescoço escondeu.

Um cão enreda-se lhe entre os pés,

sarnento, sujo, com o rabo caído.

O burguês silencioso e indecisso,

igual ao cão lá está,

e o velho mundo, como cão sarnento,

com o rabo caído está detrás.

X

A chúvia com neve põe-se furiosa.

Ai, tu, nevinha, nevinha!

A quatro passos não se enxergam as cousas,

tornam-se ariscas.

A neve brada em forma de garganta.

A neve em colunas se levanta.

-Ah, meu Deus, que forte é a nevada!

– Pedrinho, em que parvadas atolas!

De que te salvaram

o altar dourado?

Que pouco sentido também;

pensa, mira-o bem,

é que sangue não tens nas mãos frias

por amor que a Katka tinhas?

Mais firme o teu passo, revolucionário,

que está o inimigo perto e temerário!

Avante, avante, avante o fragor,

povo trabalhador!

XI


… E sem nenhum nome sagrado,
os doze a continuar avançam.
Estão dispostos a tudo,
sem lamentar nada…

Os seus fuzis de aceiro apontam
contra o inimigo que não se enxerga…
por escuras ruelas,
onde a neve impetuosa vai cair…
E da mole neve
não podem as botas sair…

A bandeira vermelha
os olhos lhes bate.

Ouvem-se
os seus passos ritmados.


A qualquer momento pode despertar
o inimigo insensível.

E a neve nos olhos caía
noite e dia
sem parar…

Avante, a avançar,
povo trabalhador!

 

XII

E vão à frente com seguro passo…

– Há alguém aí? Que se apresente!

Não, apenas o vento que joga no raso

da vermelha bandeira que lhes dá na frente…

À frente se ergue um monte de neve,

-Há alguém nele? Que se apresente!

Só um cão mendigo e faminto se atreve

a ir, rengueando, detrás da gente…

-Detrás não nos sigas, cadelo sarnento,

com a baioneta rir hei te fazer.

E tu, velho mundo, cão piolhoso,

afunde, ou eu mesmo vou te desfazer!

…Ensina os dentes como lobo faminto;

não queres deixar-nos, o rabo caído,

cão vagabundo, perro friolento.

-Ei, contesta pronto! Quem vai? Ouviste?

-Quem move à frente a bandeira vermelha?

-Olha entre as sombras, seguro alguém passa.

-Quem anda que os passos, ao cruzar, afrouxa

e quer se ocultar por detrás das casas?

-Dá o mesmo o que haja, eu vou agarrá-lo.

-Melhor que te rendas, depois já veremos.

-Ei, ei, camarada, bem mal vás passá-lo;

sai ou começamos contra ti abrir fogo!

Tra-ta-ta-ta-ta! Só, só o eco

ressoa nas casas e de leve vai…

Só a trovoada com queixumes secos

por entre a neve, gargalhadas dá.

Tra-ta-ta-ta,

tra-ta-ta-ta!

Com passo seguro assim vão sem pesar.

Seguindo as suas pegadas, um cão grande e bem listo.

E a frente deles com bandeira vermelha,

invisível na neve de alvores de asas,

imune às balas,

andando no ar com um passo leve,

levando um tesouro de perlas de neve,

coroa de rosas, como jamais se tem visto,

à frente deles, vai Jesus Cristo…

Janeiro, 1918

Двенадцать

I


Черный вечер.
Белый снег.
Ветер, ветер!
На ногах не стоит человек.
Ветер, ветер —
На всем божьем свете!

Завивает ветер
Белый снежок.
Под снежком — ледок.
Скользко, тяжко,
Всякий ходок
Скользит — ах, бедняжка!

От здания к зданию
Протянут канат.
На канате — плакат:
«Вся власть Учредительному Собранию!»
Старушка убивается — плачет,
Никак не поймет, что значит,
На что такой плакат,
Такой огромный лоскут?
Сколько бы вышло портянок для ребят,
А всякий — раздет, разут…

Старушка, как курица,
Кой-как перемотнулась через сугроб.
— Ох, Матушка-Заступница!
— Ох, большевики загонят в гроб!

Ветер хлесткий!
Не отстает и мороз!
И буржуй на перекрестке
В воротник упрятал нос.

А это кто? — Длинные волосы
И говорит вполголоса:
— Предатели!
— Погибла Россия!
Должно быть, писатель —
Вития…

А вон и долгополый —
Сторонкой — за сугроб…
Что́ нынче невеселый,
Товарищ поп?

Помнишь, как бывало
Брюхом шел вперед,
И крестом сияло
Брюхо на народ?..

Вон барыня в каракуле
К другой подвернулась:
— Ужь мы плакали, плакали…
Поскользнулась
И — бац — растянулась!

Ай, ай!
Тяни, подымай!

Ветер веселый
И зол, и рад.
Крутит подолы,
Прохожих ко́сит,
Рвет, мнет и носит
Большой плакат:
«Вся власть Учредительному Собранию»…
И слова доносит:

…И у нас было собрание…
…Вот в этом здании…
…Обсудили —
Постановили:
На время — десять, на́ ночь — двадцать пять…
…И меньше — ни с кого не брать…
…Пойдем спать…

Поздний вечер.
Пустеет улица.
Один бродяга
Сутулится,
Да свищет ветер…

Эй, бедняга!
Подходи —
Поцелуемся…

Хлеба!
Что́ впереди?
Проходи!

Черное, черное небо.

Злоба, грустная злоба
Кипит в груди…
Черная злоба, святая злоба…

Товарищ! Гляди
В оба!

II

Гуляет ветер, порхает снег.
Идут двенадцать человек.

Винтовок черные ремни,
Кругом — огни, огни, огни…

В зубах — цыгарка, примят картуз,
На спину б надо бубновый туз!

Свобода, свобода,
Эх, эх, без креста!

Тра-та-та!

Холодно, товарищ, холодно!

— А Ванька с Катькой — в кабаке…
— У ей керенки есть в чулке!

— Ванюшка сам теперь богат…
— Был Ванька наш, а стал солдат!

— Ну, Ванька, сукин сын, буржуй,
Мою, попробуй, поцелуй!

Свобода, свобода,
Эх, эх, без креста!
Катька с Ванькой занята —
Чем, чем занята?..

Тра-та-та!

Кругом — огни, огни, огни…
Оплечь — ружейные ремни…

Революционный держите шаг!
Неугомонный не дремлет враг!

Товарищ, винтовку держи, не трусь!
Пальнем-ка пулей в Святую Русь —

В кондову́ю,
В избяну́ю,
В толстозадую!

Эх, эх, без креста!

III

Как пошли наши ребята
В красной гвардии служить —
В красной гвардии служить —
Буйну голову сложить!

Эх ты, горе-горькое,
Сладкое житье!
Рваное пальтишко,
Австрийское ружье!

Мы на го́ре всем буржуям
Мировой пожар раздуем,
Мировой пожар в крови —
Господи, благослови!

IV


Снег крутит, лихач кричит,
Ванька с Катькою летит —
Елекстрический фонарик
На оглобельках…
Ах, ах, пади!..

Он в шинелишке солдатской
С физиономией дурацкой
Крутит, крутит черный ус,
Да покручивает,
Да пошучивает…

Вот так Ванька — он плечист!
Вот так Ванька — он речист!
Катьку-дуру обнимает,
Заговаривает…

Запрокинулась лицом,
Зубки блещут жемчуго́м…
Ах ты, Катя, моя Катя,
Толстоморденькая…

V


У тебя на шее, Катя,
Шрам не зажил от ножа.
У тебя под грудью, Катя,
Та царапина свежа!

Эх, эх, попляши!
Больно ножки хороши!

В кружевном белье ходила —
Походи-ка, походи!
С офицерами блудила —
Поблуди-ка, поблуди!

Эх, эх, поблуди!
Сердце ёкнуло в груди!

Помнишь, Катя, офицера —
Не ушел он от ножа…
Аль не вспомнила, холера?
Али память не свежа?

Эх, эх, освежи,
Спать с собою положи!

Гетры серые носила,
Шоколад Миньон жрала,
С юнкерьем гулять ходила —
С солдатьем теперь пошла?

Эх, эх, согреши!
Будет легче для души!

VI

…Опять навстречу несется вскачь,
Летит, вопит, орет лихач…

Стой, стой! Андрюха, помогай!
Петруха, сзаду забегай!..

Трах-тарарах-тах-тах-тах-тах!
Вскрутился к небу снежный прах!..

Лихач — и с Ванькой — наутек…
Еще разок! Взводи курок!..

Трах-тарарах! Ты будешь знать,
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Как с девочкой чужой гулять!..

Утек, подлец! Ужо, постой,
Расправлюсь завтра я с тобой!

А Катька где? — Мертва, мертва!
Простреленная голова!

Что́, Катька, рада? — Ни гу-гу…
Лежи ты, падаль, на снегу!..

Революцьонный держите шаг!
Неугомонный не дремлет враг!

VII

И опять идут двенадцать,
За плечами — ружьеца.
Лишь у бедного убийцы
Не видать совсем лица…

Всё быстрее и быстрее
Уторапливает шаг.
Замотал платок на шее —
Не оправиться никак…

— Что, товарищ, ты не весел?
— Что, дружок, оторопел?
— Что, Петруха, нос повесил,
Или Катьку пожалел?

— Ох, товарищи, родные,
Эту девку я любил…
Ночки черные, хмельные
С этой девкой проводил…

— Из-за удали бедовой
В огневых ее очах,
Из-за родинки пунцовой
Возле правого плеча,
Загубил я, бестолковый,
Загубил я сгоряча… ах!

— Ишь, стервец, завел шарманку,
Что ты, Петька, баба, что ль?
— Верно, душу наизнанку
Вздумал вывернуть? Изволь!
— Поддержи свою осанку!
— Над собой держи контроль!

— Не такое нынче время,
Чтобы нянчиться с тобой!
Потяжеле будет бремя
Нам, товарищ дорогой!

— И Петруха замедляет
Торопливые шаги…

Он головку вскидава́ет,
Он опять повеселел…

Эх, эх!
Позабавиться не грех!

Запирайте етажи,
Нынче будут грабежи!

Отмыкайте погреба —
Гуляет нынче голытьба!

VIII

Ох ты, горе-горькое!
Скука скучная,
Смертная!

Ужь я времячко
Проведу, проведу…

Ужь я темячко
Почешу, почешу…

Ужь я семячки
Полущу, полущу…

Ужь я ножичком
Полосну, полосну!..

Ты лети, буржуй, воробышком!
Выпью кровушку
За зазнобушку,
Чернобровушку…
Упокой, господи, душу рабы твоея…

Скучно!

IX

Не слышно шуму городского,
Над невской башней тишина,
И больше нет городового —
Гуляй, ребята, без вина!

Стоит буржуй на перекрестке
И в воротник упрятал нос.
А рядом жмется шерстью жесткой
Поджавший хвост паршивый пес.

Стоит буржуй, как пес голодный,
Стоит безмолвный, как вопрос.
И старый мир, как пес безродный,
Стоит за ним, поджавши хвост.

X

Разыгралась чтой-то вьюга,
Ой, вьюга́, ой, вьюга́!
Не видать совсем друг друга
За четыре за шага!

Снег воронкой завился,
Снег столбушкой поднялся…

— Ох, пурга какая, спасе!
— Петька! Эй, не завирайся!
От чего тебя упас
Золотой иконостас?
Бессознательный ты, право,
Рассуди, подумай здраво —
Али руки не в крови
Из-за Катькиной любви?
— Шаг держи революцьонный!
Близок враг неугомонный!

Вперед, вперед, вперед,
Рабочий народ!

XI

…И идут без имени святого
Все двенадцать — вдаль.
Ко всему готовы,
Ничего не жаль…

Их винтовочки стальные
На незримого врага…
В переулочки глухие,
Где одна пылит пурга…
Да в сугробы пуховые —
Не утянешь сапога…

В очи бьется
Красный флаг.

Раздается
Мерный шаг.

Вот — проснется
Лютый враг…

И вьюга́ пылит им в очи
Дни и ночи
Напролет…

Вперед, вперед,
Рабочий народ!

XII

…Вдаль идут державным шагом…
— Кто еще там? Выходи!
Это — ветер с красным флагом
Разыгрался впереди…

Впереди — сугроб холодный,
— Кто в сугробе — выходи!..
Только нищий пес голодный
Ковыляет позади…

— Отвяжись ты, шелудивый,
Я штыком пощекочу!
Старый мир, как пес паршивый,
Провались — поколочу!

…Скалит зубы — волк голодный —
Хвост поджал — не отстает —
Пес холодный — пес безродный…
— Эй, откликнись, кто идет?

— Кто там машет красным флагом?
— Приглядись-ка, эка тьма!
— Кто там ходит беглым шагом,
Хоронясь за все дома?

— Все равно, тебя добуду,
Лучше сдайся мне живьем!
— Эй, товарищ, будет худо,
Выходи, стрелять начнем!

Трах-тах-тах! — И только эхо
Откликается в домах…
Только вьюга долгим смехом
Заливается в снегах…

Трах-тах-тах!
Трах-тах-тах…

…Так идут державным шагом,
Позади — голодный пес,
Впереди — с кровавым флагом,
И за вьюгой, невидим,
И от пули невредим,
Нежной поступью надвьюжной,
Снежной россыпью жемчужной,
В белом венчике из роз —
Впереди — Исус Христос.

Январь 1918

 

 

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https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/7/70/12_%26_Skythes_by_A._Block_%281918%29.jpg/200px-12_%26_Skythes_by_A._Block_%281918%29.jpg


O LAGO de Alphonse de Lamartine, versión galega de André Da Ponte

O POEMA “O LAGO” DE ALPHONSE DE LAMARTINE TRADUZIDO PARA O GALEGO E UMA NOTA SOBRE O POEMA.

 

É perto do lago de Bourget, na Saboia, que Lamartine escreveu este célebre poema, uma das obras mestras da literatura em francês e ainda de toda a literatura universal.

Julie Charles, esposa do célebre físico Jacques Charles (Beaugency, Orléanais, hoje Loiret, 12 de novembro de 1746 – Paris, 7 de abril de 1823), devia se juntar com o poeta em agosto de 1817 no Lago de Bourget, lugar de múltiplos encontros entre os dous amantes, mas a enfermidade dela reteve-a em Paris, onde viu a morrer em dezembro do mesmo ano vitimada pola tísica pulmonar.

No seu Comentário ao poema, Lamartine fez alusão à música que Niedermeyer (Abraham-Louis de Niedermeyer d’Altenburg, nascido em Nyon, Suíça, 27 de abril de 1802 e morto em 14 de março de 1861 em Paris) compôs sobre Le Lac: “Sempre pensei que a música e a poesia nutriam-se se associando. Ambas são artes completas: A música leva consigo o seu sentimento; os belos versos portam com eles a sua melodia.”

Os críticos franceses concordam que é, junto com Tristesse d’Olympio de Victor Hugo e Souvenir de Alfred de Musset, o mais belo poema que se tem escrito por autores galos no século XIX.

 

 O LAGO

 

Assim, empurrados sempre para novas ourelas,

Na eterna noite, sem retorno, levados,

Nunca poderemos no oceano dos tempos

deixar um só dia os esteios ancorados?

 

Ó lago!, o ano se tem cumprido apenas,

E estou cá solitário. Suas pegadas

não voltarão deixar nas tuas areias

A que desta rocha, ainda ontem, sereias

Deitou em ti as suas olhadas!

 

E assim como agora, então ressoavas;

Mugindo vais como naqueles dias,

Contra estas penas o teu furor desbravas,

E com a branca espuma o mesmo musgo lavas

Onde os seus pés lambias.

 

Uma tarde, lembras-te? Em enlevo supremo

Íamos ela e eu, em silêncio bogando,

E sob o céu azul, de um a outro extremo,

Mas tão só se escuitava o bater do remo

nas ondas cadenciando.

 

E foi que de repente aquele mudo vento

Cativou encantado uma voz divina;

Nunca ninguém sonhara um tão tal doce acento

na água cristalina:

 

“Ó tempo! Suspende tua carreira,

Não quebres nosso enlevo,

Tu, tempo voador.

Deixa-nos gozar por sempre

os mágicos instantes

que cá brinda o amor.

 

“Quantos infelizes cá baixo não te imploram

No teu correr fugaz;;

Toma com os seus dias os seus que os devoram;

Deixa o ditoso em paz.

 

“Mas eu demando em vão que nesta mansa noite

lento mova seu pé;

As estrelas já rodam e no oriente pálido

A aurora já se vê.

 

“Amemos, pois, amemos na hora fugitiva,

Apressados gozemos!

Nem tem o homem porto nem o tempo ribeira;

Que flua e nos passemos!”

 

Por enquanto o mal acerbo dura,

O tempo que à sua vista se adormece,

A roubar-nos a dita se apressura

E o momento que encerra mais doçura,

Fuje e desaparece.

 

E nunca há de voltar o que é passado?

Tudo quanto se foi ficou perdido,

E para sempre o sepulta o fado

Em mudo seio, trás alto valado,

Em sempiterno olvido?

 

Nem ainda guardaremos suas pegadas?

Para onde vão as delícias que devoras,

Que fazeis Eternidade, sombras abismadas,

das deglutidas horas?

 

Ó lago! rochas mudas! covas! selva escura!

Perdoa-vos o tempo ou talvez

Beleza vos torna, a fermosura

Dessa noite guardai. Salva, ó Natura,

Sua lembrança sequer!

 

Perene é o recordo, ó lago,

Em teu recinto, nas suaves frondas

Que te envolvem com ridente afago,

Nestas rochas que com turvo âmago

Colgam sobre tuas ondas!

 

Que seja no zéfiro que treme e que passa,

Nas copas sussurrantes que as folhas humilha,

E na argêntea lua que branqueja sua cara

E que no éter brilha.

 

Que o vento que geme, a roseira que suspira,

Que os perfumes leves que os ares ambientaram,

Quanto aqui se senta, se veja ou se respira,

Tudo diga: eles se amaram!

 

Alphonse de Lamartine (Mâcon, 21 de outubro de 1790 – Paris, 28 de fevereiro de 1869)

[Tradução do texto em francês recolhido em “Lamartin. Chefs-d´oeuvre poétiques”, Librairie A. Hatier, Paris, s/d, páginas 13-15]

 

Le Lac

 

Ainsi, toujours poussés vers de nouveaux rivages,

Dans la nuit éternelle emportés sans retour,

Ne pourrons-nous jamais sur l’océan des âges

Jeter l’ancre un seul jour ?

 

Ô lac ! l’année à peine a fini sa carrière,

Et près des flots chéris qu’elle devait revoir,

Regarde ! je viens seul m’asseoir sur cette pierre

Où tu la vis s’asseoir !

 

Tu mugissais ainsi sous ces roches profondes,

Ainsi tu te brisais sur leurs flancs déchirés,

Ainsi le vent jetait l’écume de tes ondes

Sur ses pieds adorés.

 

Un soir, t’en souvient-il ? nous voguions en silence ;

On n’entendait au loin, sur l’onde et sous les cieux,

Que le bruit des rameurs qui frappaient en cadence

Tes flots harmonieux.

 

Tout à coup des accents inconnus à la terre

Du rivage charmé frappèrent les échos ;

Le flot fut attentif, et la voix qui m’est chère

Laissa tomber ces mots:

 

” Ô temps ! suspends ton vol, et vous, heures propices !

Suspendez votre cours :

Laissez-nous savourer les rapides délices

Des plus beaux de nos jours!

 

” Assez de malheureux ici-bas vous implorent,

Coulez, coulez pour eux ;

Prenez avec leurs jours les soins qui les dévorent ;

Oubliez les heureux.

 

” Mais je demande en vain quelques moments encore,

Le temps m’échappe et fuit;

Je dis à cette nuit : Sois plus lente ; et l’aurore

Va dissiper la nuit.

 

” Aimons donc, aimons donc ! de l’heure fugitive,

Hâtons-nous, jouissons !

L’homme n’a point de port, le temps n’a point de rive ;

Il coule, et nous passons ! “

 

Temps jaloux, se peut-il que ces moments d’ivresse,

Où l’amour à longs flots nous verse le bonheur,

S’envolent loin de nous de la même vitesse

Que les jours de malheur ?

 

Eh quoi ! n’en pourrons-nous fixer au moins la trace ?

Quoi ! passés pour jamais ! quoi ! tout entiers perdus !

Ce temps qui les donna, ce temps qui les efface,

Ne nous les rendra plus!

 

Éternité, néant, passé, sombres abîmes,

Que faites-vous des jours que vous engloutissez ?

Parlez : nous rendrez-vous ces extases sublimes

Que vous nous ravissez?

 

Ô lac ! rochers muets ! grottes ! forêt obscure !

Vous, que le temps épargne ou qu’il peut rajeunir,

Gardez de cette nuit, gardez, belle nature,

Au moins le souvenir!

 

Qu’il soit dans ton repos, qu’il soit dans tes orages,

Beau lac, et dans l’aspect de tes riants coteaux,

Et dans ces noirs sapins, et dans ces rocs sauvages

Qui pendent sur tes eaux.

 

Qu’il soit dans le zéphyr qui frémit et qui passe,

Dans les bruits de tes bords par tes bords répétés,

Dans l’astre au front d’argent qui blanchit ta surface

De ses molles clartés.

 

Que le vent qui gémit, le roseau qui soupire,

Que les parfums légers de ton air embaumé,

Que tout ce qu’on entend, l’on voit ou l’on respire,

Tout dise : Ils ont aimé !

 

O LAGO DU BOURGET CANTADO POLO POETA.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/2/28/Lac_du_Bourget_%26_cha%C3%AEne_de_Belledonne.JPG/800px-Lac_du_Bourget_%26_cha%C3%AEne_de_Belledonne.JPG

 

MAIS OUTRA VEZ ROSSINI E O SEU CÉLEBRE “LARGO AL FACTOTUM”, por André Da Ponte

Abondando em Rossini, apresento, mais outra vez, uma peça enormemente popular do rico património operístico (e não só!) de quem foi chamado por Giuseppe Verdi “O Cisne de Pésaro”.

Vamos falar algo em torno ao grande Rossini.

Gioachino Antonio Rossini nasceu numa família de músicos em Pésaro, cidade que se acha na costa do mar Adrático, na Itália. Seu pai, Giussepe, chamado o vivaz, era trompista (de corno inglês. Ainda não fazendo parte da família dos oboés, como podem ser o oboé píccolo, o oboé baixo e o oboé contrabaixo, o corno inglês é um instumento que pode ser catalogado como um oboé tenor, onde o oboé propriamente dito faria parte da corda das sopranos, o oboé d´amore, a de contralto e o oboé baixo, a corda dos baixos) e inspetor de matadouros e sua mãe, Anna Guidarini, filha dum padeiro.

Cedo começou a sua educação musical, começando polo seu próprio pai, apreendendo a tocar a espineta com o vinhateiro Giuseppe Prinetti, depois com o padre Giuseppe Malerbi, de Novara, onde puido consultar a biblioteca deste cura que possuia grandes composições dos tempos que se passaram e com só seis anos já tocava o triángulo na banda à que pertencia o pai.

Por causa de ser seu pai um fervoroso seguidor da Revolução Francesa e dar as boas-vindas às tropas de Napoleão quando invadiram o norte da Itália e, após restaurarem os austríacos o antigo régime em 1796, seu pai foi preso. A mãe decidiu enviar ao prometedor rapaz para a Bolonha, onde ela passou a ganhar a vida como cantora nos diversos teatros da região da Romanha. Seu pai, afinal, puido se reunir com o resto da famíla e voltar tocar a trompa nos diversos teatros onde a mãe, Anna, cantava. Mudado, então, para Bolonha tivo como professores, primeiro ao sacerdote Angelo Tesei e, entrou no prestigioso Liceu Musical, sob a tutela do cura Stanislao Mattei, ganhando um prémio por uma cantata que tinha composto aos dezasseis anos.

Como cravista (cravo é denominado qualquer dos membros de instumentos musicais de tecla, incluíndo aí aos grandes instrumentos como os propriamente ditos cravos, mas também os menores como o virginal, o virginal muselar e a espineta. Todos eles têm a característica de serem de cordas pinçadas, isto é, geram o som beliscando a corda, em troca de percuti-la como o piano ou o clavicórdio) acompanhante nos teatros, Rossini foi chamado para compor uma ópera breve em 1810 (La cambiale di matrimonio) e, como consequência do seu grande êxito, foi chamado para se mudar a Veneça e Milão. Foi tal o sucesso das suas obras que a sétima ópera ( La pietra del paragone – 1812) permaneceu no palco de La Scala por nada mais e nada menos que cinquenta e três funções iniciais. Foi deste jeito que Rossini se converteu no primeiro compositor do seu tempo, ainda contando apenas com vintecinco anos de idade. Nesta época da sua fértil existência é que o Cisne de Pésaro elevou o género bufo à perfeição musical.

Em 1815 o empresário Domenico Barbaija contrata-o para estrear em Nápoles com a subenção do Governo com a finalidade de apresentar no Teatro San Carlo e no Teatro Del Fondo, escrevendo para as vozes mais importantes da altura como Manuel Garcia e Isabella Colbran – que haveria se tornar andando o tempo na esposa de Rossini – Giovianni Rubini e outros. Nesta época é que dá renda solta à sua prodigiosa imaginação musical e creatividade começando a percorrer toda a Itália abrangendo todos os géneros, tanto a ópera séria como a semi-séria e a bufa, cuja influência foi duradoura não só nos seus contemporâneos, mas também nos posteriores e as suas melodias converteram-se em fitos imarcesíveis e permanentes.

Em 1816 dá para a estreia no Teatro Argentina de Roma, com o argumento de Cesare Sterbini, uma das grandes obras do repertório operístico de todos os tempos: Il barbiere de Siviglia (O barbeiro de Sevilha). Baseada na trilogia do escritor francês Pierre-Augustin de Beaumarchais (lembremos que a segunda parte, Le nozze di Figaro, As bodas de Fígaro, foi musicada polo genial Wolfgang Amadeus Mozart). Nas primeiras representações foi um absoluto fracasso, mas depois o mesmo Giuseppe Verdi haveria de colocá-la como uns dos cimos das obras musicais encenadas. Antes do nosso compositor o respectado autor de Tarento, Giovanni Paissiello, puxera em música esta obra, mas Rossini apagou do cartel esta obra, como também a doutros grandes compositores do momento como Nicola Antonio Zingarelli, Carlo Coccia, Ferdinando Paër, Saverio Marcadante, Simon Mayr e o próprio Paissiello.

Em 3 de vereriro de1823 apresentou a sua última ópera na Italia, Semiramide (Semíranis) baseada na obra Tragédie de Sémiramis de Voltaire (Esta ópera, a derradira encenada na Itália, foi exibida com o papel da primeira esposa de Rossini, Isabella Colbran (além de soprano, também compositora, nascida em Madrid em 28 de fevereriro de 1784 e falecida em Castenaso – comuna italiana pertencente à cidade de Bolonha, na Romanha – o 7 de outubro de 1845.

Depois desta apresentação o fecundo músico desloca-se para Paris onde as suas obras têm uma acolhida triunfal.

Foi assim que em 30 de julho de 1824 tornou-se directeur de la musique et de la scène no Théâtre-Italien sob a obriga de compor, polo menos, para a Opéra. A primeira ópera composta na cidade francesa foi Il viaggio a Reims (A viagem a Reims), em honra do rei Carlos X, e estreada em 19 de junho de 1825 no mesmo Théâtre Italien, da que só se puderam representar três vezes em cena.

Pouco depois, Rossini deu ao lume a sua última grande obra, Guglielmo Tell (Guilherme Tell), autêntica obra mestra que se coloca a cavalo do classicismo e o romanticismo, em 3 de agosto de 1829. Foi a sua definitiva consagração, mas também, a derradeira grande obra do genial italiano. Ainda lhe restavam quarenta anos mais de vida.

Apenas adicado a sua grande paixão, a gastronomia (os turnedós Rossini é um dos pratos tradicionais da cozinha francesa e atribuído ao grande compositor), compôs algumas breves peças musicais – já sem o alento das suas grandes obras operísticas -.

Separado legalmente em 1837 da sua primeira mulher, Isabella Colbran, foi-se viver com Olympe Pélissier (nascida Olympe Louise Alexandrine Descuillers, Paris, 9 de maio de 1799 e morta aos 78 anos em Paris em 22 de março de 1878. Olympe manteve um romance com o romancista francês Honoré de Balzac), mas só casou com ela após a morte de Isabella em 1845.

Rossini não só foi aclamado polas multidões que gozavam com as suas imensas óperas, embora recebeu importantíssimas condecorações tanto na França como na Itália e um reconhecimento quase unânime dos seus colegas músicos. Assim foi que em seguida da entrevista entre Rossini e Richard Wagner em 1860, o compositor do Anel do Nibelungo declarou que de todos quantos compositores conhecera em Paris, o único verdadeiramente grande era Rossini.

Rossini faleceu em Passy, perto de Paris em 13 de novembro de1868. Como já temos dito no post anterior por volta do Moisés em Egipto, milhares de pessoas entoaram a impressionante Prece desta ópera na honra do genial músico, dando-lhe o derradeiro adeu. Foi enterrado com todas as honras no Campo-Santo de Père-Lachaise e os seus restos transferidos em 1887 para Florença em 1887 onde descansa, já imortal, na basílica de La Santa Croce ao lado de glórias de Itália e do mundo como Galileu Galilei, Dante e Miguel-Ângelo.

Deixou um considerável legado monetário destinado para fundos para um asilo de músicos aposentados (ainda hoje existe o tal asilo) e outras obras de beneficência.

Sobrevivera a muitos outros compositores que eram chamados a serem os seus sucessores no trono da ópera italiana como Vicenzo Bellini, Gaetano Donizetti e Giacomo Meyerber e coincidiu com a aparição deslumbrante de Giuseppe Verdi e Richard Wagner.

Por causa do seu falecimento, Giuseppe Verdi convidou aos melhores compositores da Itália para comporem uma Missa de Réquiem na honra e memória do Cisne de Pésaro. Por motivações de razões políticas adversas a obra não chegou a bom porto e Verdi só compôs o Libera me que incluiu depois no Réquiem dedicado a Alessandro Manzoni.

Muitos compositores posteriores, dentre eles Nicoló Paganini, Fredreric Chopin, Ottorino Respighi ou Louis Niedermayer têm criado variações, orquestrações e adaptações de muitas das obras de Rossini.

Hoje descansa para sempre na nossa memória quem foi autor de obras como: L´italiana in Algeri (Teatro San Benedetto, Veneza, 22 de maio de 1813); Il barbieri di Siviglia, Almaviva, ossia l’inutile precauzione (Teatro Argentina, Roma, 20 de fevereiro de 1816); La Cenerentola, ossia La bontà in trionfo (Teatro Valle, Roma, 25 de janeiro de 1817); La gazza ladra (Teatro alla Scala, Milão, 31 de maio de 1817) ou Moïsé et Pharaon, ou Le passage de la Mer Rouge – rifacimento di Mosè in Egitto (Teatro dell’Accademia Reale di Musica, Paris, 26 de março de 1827)

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SOBRE AS DIFICULDADES DESTA CÉLEBRE ÁRIA

Por causa do uso de tercinas numa métrica musical de 6/8 em tempo allegro vivace, é uma das peças musicais mais complicadas de interpretar para as vozes de barítono. Todo isto unido à complicada letra nalgumas das linhas ao insistir em superlativos italianos acabados em íssimo faz desta ária um tour de force onde o cantante tem a possibilidade de tirar todas as suas habilidades.

Aqui cantado polo grande barítono russo (falecido recentemente, Dmitri Hvorostovski [em russo:Дмитрий Александрович Хворостовский]; Krasnoyarks, 16 de outubro de 1962 – Londres, 22 de novembro de 2017.

Descanse em paz o grande cantor:

https://youtu.be/TKDXr_fimQ8

LARGO AL FACTOTUM

Abram caminho para o faz-tudo da cidade.
Apressa-se a sua loja que desde a madrugada está já.
Ah, que boa vida, que bom prazer
por um barbeiro de qualidade! De qualidade!
Ah, bravo Fígaro!
Bravo, bravíssimo!
Venturoso de verdade!
Pronto para fazer tudo,
de noite e de dia
sempre movendo-se está.
Melhor bonança para uma barbeiro,
vida mais nobre, não, não dá.
Navalhas e pentes,
lanceta e tesouras,
ao meu comando
tudo aqui está.
Esta são as ferramentas,
do meu trabalho
com as senhoras… com os cavaleiros…
Ah, que boa vida, que bom prazer
para um barbero de qualidad! De qualidade!
Todos me procuram, todos me querem,
Senhoras, senhoritas, velhos, meninhas:
Toma a peruca… logo com a barba…
Toma a sangria…
Logo com o bilhete…
Toma a peruca, logo com a barba,
Rápido com o bilhete, ei!
Fígaro! Fígaro! Fígaro!, etc.
Ah, quanta gente!
Ah, que fúria!
Um por vez, por favor!
Ei, Fígaro! Estou aqui.
Fígaro aqui, Fígaro alá
Fígaro acima, Fígaro abaixo.
Pronto, tudo pronto, sou como um raio:
Eu sou o factotum da cidade.
Ah, bravo Fígaro! Bravo, bravíssimo,
A ti fortuna nunca faltará!
Sou o factotum da cidade
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LARGO AL FACTOTUM

Largo al factotum della città.
Presto a bottega che l’alba è già.
Ah, che bel vivere, che bel piacere
per un barbiere di qualità! di qualità!

Ah, bravo Figaro!
Bravo, bravissimo!
Fortunatissimo per verità!

Pronto a far tutto,
la notte e il giorno
sempre d’intorno in giro sta.
Miglior cuccagna per un barbiere,
vita più nobile, no, non si da.

Rasori e pettini
lancette e forbici,
al mio comando
tutto qui sta.
V’è la risorsa,
poi, del mestiere
colla donnetta… col cavaliere..

Ah, che bel vivere, che bel piacere
per un barbiere di qualità! di qualità!

Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono,
donne, ragazzi, vecchi, fanciulle:
Qua la parrucca… Presto la barba…
Qua la sanguigna…
Presto il biglietto…
Tutti mi chiedono, tutti mi vogliono,
Qua la parrucca, presto la barba,
Presto il biglietto, ehi!

Figaro! Figaro! Figaro!, ecc.
Ahimè, che furia!
Ahimè, che folla!
Uno alla volta, per carità!
Figaro! Son qua.
Ehi, Figaro! Son qua.
Figaro qua, Figaro là,
Figaro su, Figaro giù.

Pronto prontissimo son come il fulmine:
sono il factotum della città.

Ah, bravo Figaro! Bravo, bravissimo;
a te fortuna non mancherà.

Sono il factotum della città!

A PRECE DE MOISÉS de Rossini, vertida para o galego-português por André Da Ponte

Poucas vezes na história da arte um grande compositor como Gioachino Rossini, ou Gioacchino, quando o baptismo Giovacchino Antonio Rossini (Pésaro, 29 de fevereiro de 1792 – Passy, Paris, 13 de novembro de 1868) tem alcançado im fervor igual que o rouxinol de Pésaro.

Compostor de óperas como Il barbiere de Siviglia (O barbeiro de Sevilha), La Cenerentola (A Cinderela) ou Guillaume Tell (Guilherme Tell). Esta última escrita em 1829, marca o final da sua esplendorosa carreira como compositor de óperas.

Quando o gigantesco compositor morreu na sua casa de campo de Passy, perto de Paris em 1868, milhares de vozes entoaram a Prece de Moisés na sua honra.

Este é o texto que coloco traduzido desde o italiano, suplicando que, após lerdes a tradução escuiteis o vídeo que coloco desta prece genial que foi inspirada sobre a tragédia L´Osiride de Francesco Ringhieri:

https://youtu.be/MEjnUbRE0Hg

Mas, antes, um pequeno apontamento sobre o autor da letra: Andrea Leone Trottola.

Nada se sabe do dia nem do ano do nascimento do prolífico libretista que foi imensamente solicitado tanto por Gioachino Rossini como por Gaetano Donizetti. Nem sequer onde foi que viu à vida.

Sábe-se que começou escrever libretos para óperas em 1802.

O seu libreto para a ópera Gabriella di Vergy – no princípio criado por Michele Carafa – foi revisado por Donizetti entre as décadas de 1820 e 1830. Ainda escreveu seis libretos mais para Donizetti, incluídos os de La zíngara (1822), Alfredo il grande (1823), Il castello di Kenilworth (1829) e Imelda de Lambertazzi em 1830.

Para Vincenzo Bellini escreveu Adelson e Salvini (1825). Ainda escreveu letras para compositores como Giovanni Pacini (Alessandro nelle Indie, 1824) e para Saverio Mercadante, Johann Simon Mayr, Nicola Vacca, Enrico Petrella, Ferdinando Paer e Manuel Garcia.

O libretista morreu em Nápoles em 15 de setembro de 1831.

A ópera Mosè in Egito foi estreada no Teatro San Carlo de Nápoles em 5 de março de 1818.

E mais nada, deixo-vos, então com esta emocionante música e letra.

 

A PRECE DE MOISÉS (CENA TERCEIRA DO ATO TERCEIRO)

 

MOISÉS

(E de Israel o Deus

Invoca apenas Moisés)

Do teu trono estrelado,

Senhor., vira-te para nós.

Misericórdia para os teus filhos.

Do povo tem piedade.

 

ANAIDE, MARIA, ELISEU e CORO

Misericórdia para os teus filhos,

Do povo tem piedade.

 

ELISEU

Se estiver pronto para tua vontade

São elementos e esferas,

Teu amigo escapa ao apontar

Dúvida, errante pé.

 

ANAÍDE, MARIA, ELISEU e CORO

Deus é misericordioso

Nós vivemos apenas em você.

 

ANAÍDE

Neste coração doente

Deh! Desça, oh Deus clemente:

E fármaco suave

Seja de paz polo menos.

 

TODOS

Do teu trono estrelado,

Senhor., vira-te para nós.

Misericórdia para os teus filhos.

Do povo tem piedade.

 

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Preghiera “Dal tuo stellato soglio”

 

 

MOSÈ

(E d´Israello il Dio

Invoca sol Mosè)

Dal tuo stellato soglio,

Signor, ti volgi a noi.

Pietà de´figli tuoi.

Del popolo tuo pietà.

 

ANAIDE, MARIA, ELISEO e CORO

Pietà de´figli tuoi,

Del popolo tuo pietà.

 

ELISEO

Se pronti al tuo volere

Sono elementi e sfere,

Tuo amico scampo addita

Al dubbio, errante piè.

 

ANAÍDE, MARIA, ELISEO e CORO

Pietoso Dio, ne aita:

Noi non viviam che in te.

 

ANAÍDE

In questo cor dolente

Deh! Scendi, oh Dio clemente:

E farmaco soave

Gli sia di pace almen.

 

ANAÍDE, MARIA, ELISEO e CORO

Il nostro cor che pena

Deh! Tu conforta almen.

 

TUTTI

Dal tuo stellato soglio,

Signor, ti volgi a noi

Pietà de´figli tuoi

Del popolo tuo pietà.

 

SURREALISMO

SURREALISMO

 

SURREALISMO

 

Sobrevaloramos a morte

Cando o único que nos fai esmorecer

é o medo!

O medo que nos derrota ante as loitas

Perante as escaramuzas, nas batallas

Por iso é que hai seres

Que van morrendo en anaquiños, no silencio

E vidas que resisten e camiñan

En ousadas valentías fronte aos prexuízos

Sobrevaloramos a morte construída no egoísmo

Hai quen di que por iso os poetas

Agonían o seu eu lírico moribundo

E os analfabetos heterodoxos

Practicamos as rimas inadaptados ás normas

Sobrevaloramos a morte coma se fose a metáfora

Madita sexa, só é unha escusa!!

En tanto o tempo nos delata

E o progreso nos institucionaliza e nos retrata

Neste xogo de espellos

Que é vivir!!

E deixar vivir !!

Sobrevaloramos a morte coma se fose a fin

Cando somos milleiros de ratos xirando na roda

Na gaiola

De quen son as mans que nos sentenzan a galeras ?

 

  • PILAR MASEDA