Ó, FICA, de Mihai Eminescu, vertido ao galego-portugués por André Da Ponte

Ó, FICA, de Mihai Eminescu, vertido ao galego-portugués por André Da Ponte

O GENIAL POETA ROMENO, MIHAI EMINESCU, TRADUZIDO EM GALEGO – PORTUGUÊS.

Na tradução tentei não só ser o mais fiel possível ao texto em romeno, mas também à estrofe poética que “traduzi” em quadras ao jeito popular galego-português.

Ó, FICA…!

“Ó, fica, fica comigo,

quero-te, te adoro tanto!

Todos teus desejos, todos

tão só eu sei escuitá-los.

Na sombra longa da lua,

a princesa te assemelho,

que se reflete nas águas

com seus doces olhos negros.

E entre o rumor das ondas

e entre o ondear das ervas,

fago te escuitar, misterioso,

o rebanhinho das cervas.

Vejo te feliz, suspensa,

como cantas em voz baixa

e na água reluzente

teu pezinho nu avanças.

Ao ver da lua cheia

sua luz nos lagos ficar-se,

são um instante teus anos

e os séculos um instante”.

Terno, o bosque assim falou,

movendo seus altos ramos.

A seu convite assobiei

e sai rindo pra o campo.

Hoje quisesse voltar;

já nada compreenderia…

Diz tu, infância, onde vai

teu bosque daqueles dias?

(Convorbiri literare, 1 de fevereiro de 1879)

Mihail Eminescu (Botoșani, 15 de janeiro de 14850 — Bucareste, 15 de junho de 1889)

[Traduzido do romeno para galego – português desde LUCEAFĂRUL şi alte poezii, Corĭnt, Clasici Romani, Bucureşti, 2004, páginas 32-33]

O, rămâi…

“O, rămâi, rămâi la mine –
Te iubesc atât de mult!
Ale tale doruri toate
Numai eu ştiu să le-ascult;

În al umbrei întuneric
Te asamăn unui prinţ,
Ce se uit-adânc în ape
Cu ochi negri şi cuminţi;

Şi prin vuietul de valuri,
Prin mişcarea naltei ierbi,
Eu te fac s-auzi în taină
Mersul cârdului de cerbi:

Eu te văd răpit de farmec
Cum îngâni cu glas domol,
În a apei strălucire
Întinzând piciorul gol

Şi privind în luna plină
La văpaia de pe lacuri,
Anii tăi se par ca clipe,
Clipe dulci se par ca veacuri.”

Astfel zise lin pădurea,
Bolţi asupră-mi clătinând –
Şuieram l-a ei chemare
Ş-am ieşit în câmp râzând.

Astăzi chiar de m-aş întoarce
A-nţelege n-o mai pot…
Unde eşti, copilărie,
Cu pădurea ta cu tot?

(Convorbiri literare, 1 februarie 1879)

FOTO DO GRANDE POETA TIRADA EM 1878.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/8/85/Mihai_Eminescu_27.jpg

MELANCOLIA, de Mihai Eminescu, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

MELANCOLIA, de Mihai Eminescu, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

UM GENIAL POETA ROMENO, MIHAI EMINESCU, TRADUZIDO EM GALEGO.

Conhece-se nos países de língua galego-portuguesa a Mihai Eminescu? Penso que, infelizmente, nada se sabe deste genial poeta que pode, e ainda se deve, comparar a Camões ou Rosalia de Castro entre nós.

Eu devo este conhecimento e prazer de ler cada dia o poeta nacional da Romênia e da Moldávia à minha querida amiga romena e, muito boa soprano aliás, Ana Cioca, hoje morando de volta na Romênia. Vai para ela, que tanto gostava da língua galego-portuguesa, esta tradução com toda a saudade na alma.

Traduzirei para conhecimento comum alguns poemas deste gigante da poesia e direi algo em volta deste poeta realmente gigante e sublime, ao final das traduções.

(Como sempre, o texto na língua original vai em baixo da minha tradução)

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MELANCOLIA

É como se abrisse entre as nuvens uma porta,

para que a rainha da noite passe morta.

Ó, dorme, dorme em paz entre milhares de fachas,

baixo a tua tumba azul e o sudário de prata,

em teu grande mausoléu, abóbada dos céus,

tu, doce e adorada noturna soberana!

O mundo na sua largura jaz baixo o orvalho,

que reveste dum véu de luz aldeias e campos;

o ar cintila e como a cal alvos

brilham os edifícios, as ruínas solitárias.

O campo-santo, mudo, de cruzes rotas, vela;

sobre uma cruz, há, gris, uma coruja parada,

o campanário range, as traves ressoam,

e o demo, diáfano, atravessando o ar,

roça de leve o bronze com as suas asas,

arrancando um lamento, uma onda de dor.

……………………………………………….. A igreja derrubada

mantem-se piedosa e triste e muda e velha,

e através seus vidros rotos assobia o vento;

dissera-se um ensalmo do que se ouvem palavras.

Dentro, sobre os muros antes de ícones cheios,

apenas ficaram as contornas assombradas,

e como sacerdote, um grilo vai tecendo

a sua ideia escura enquanto dobra uma traça.

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Foi a fé quem pintou os ícones dos templos,

ela quem encheu de contos mágicos minha alma,

mas o trovão e o vaivém da vida

apenas me deixaram sombras e tristes pegadas.

Em vão busco hoje meu mundo no meu cérebro

porque ferrugento e velho só nele um grilo canta;

bate meu coração baixo da minha mão

como se a uma ataúde roesse uma traça.

Quando penso a minha vida, vejo-a que esbara

lentamente por lábios estrangeiros contada,

como se minha não fosse, como se fosse um aborto.

Quem é este que conta a minha vida de cor

tão bem que mesmo o escuito e rio da dor

como se fosse alheio?… Faz tempo que estou morto.

(Publicado em Convorbiri literare, 1 de setembro de 1876)

Mihail Eminescu (Botoșani, 15 de janeiro de 1850 — Bucareste, 15 de junho de 1889)

[Traduzido do romeno para o galego desde LUCEAFĂRUL şi alte poezii, Corĭnt, Clasici Romani, Bucureşti, 2004, páginas 27-28].

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MELANCOLIE

Părea că printre nouri s-a fost deschis o poartă,
Prin care trece albă regina nopţii moartă. –
O, dormi, o, dormi în pace printre făclii o mie
Şi în mormânt albastru şi-n pânze argintie,
În mausoleu-ţi mândru, al cerurilor arc,
Tu adorat şi dulce al nopţilor monarc!
Bogată în întinderi stă lumea-n promoroacă,
Ce sate şi câmpie c-un luciu văl îmbracă;
Văzduhul scânteiază şi ca unse cu var
Lucesc zidiri, ruine pe câmpul solitar.
Şi ţintirimul singur cu strâmbe cruci veghează,
O cucuvaie sură pe una se aşează,
Clopotniţa trosneşte, în stâlpi izbeşte toaca,
Şi străveziul demon prin aer când să treacă,
Atinge-ncet arama cu zimţii-aripei sale
De-auzi din ea un vaier, un aiurit de jale.
Biserica-n ruină
Stă cuvioasă, tristă, pustie şi bătrână,
Şi prin fereste sparte, prin uşi ţiuie vântul –
Se pare că vrăjeşte şi că-i auzi cuvântul –
Năuntrul ei pe stâlpii-i, păreţi, iconostas,
Abia conture triste şi umbre au rămas;
Drept preot toarce-un greier un gând fin şi obscur,
Drept dascăl toacă cariul sub învechitul mur.
……………………………………………………………..
Credinţa zugrăveşte icoanele-n biserici –
Şi-n sufletu-mi pusese poveştile-i feerici,
Dar de-ale vieţii valuri, de al furtunii pas
Abia conture triste şi umbre-au mai rămas.
În van mai caut lumea-mi în obositul creier,
Căci răguşit, tomnatec, vrăjeşte trist un greier;
Pe inima-mi pustie zadarnic mâna-mi ţiu,
Ea bate ca şi cariul încet într-un sicriu.
Şi când gândesc la viaţa-mi, îmi pare că ea cură
Încet repovestită de o străină gură,
Ca şi când n-ar fi viaţa-mi, ca şi când n-aş fi fost.
Cine-i acel ce-mi spune povestea pe de rost
De-mi ţin la el urechea – şi râd de câte-ascult
Ca de dureri străine?… Parc-am murit de mult.

(Comvorbiri literare, 1 septembrie 1876)

FOTO DO GENIAL POETA TIRADA EM 1869

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/dc/Eminescu.jpg

Soneto do vinho, de Jorge Luis Borges, vertido ao galego por André Da Ponte

Soneto do vinho, de Jorge Luis Borges, vertido ao galego por André Da Ponte

SONETO DO VINHO

Em que reino, que século, sob qual silenciosa
Conjunção dos astros, em que secreto dia
Que o mármore não salvou, foi a valorosa
E singular ideia de inventar a alegria?

Com outonos de ouro a inventaram. O vinho
Flui vermelho por sobre as gerações
Como o rio do tempo e no árduo caminho
Nos doa sua música, seu fogo e seus leões.

Na noite de júbilo ou na jornada adversa
Exalta a alegria ou mitiga o espanto
E o ditirambo novo que este dia lhe canto


Outrora o cantaram o árabe e o persa.
Vinho, ensina-me a arte de ver a minha história
Como se esta já fosse cinza na memória.

Jorge Luís Borges, in “El otro, el mismo”, 1964. Das Obras Completas, Vol. III, Círculo de Lectores, Barcelona, 1995, página 77.

https://universoabiertoblog.files.wordpress.com/2017/09/jorge-luis-borges-en-la-biblioteca-nacional.jpg?w=625

EL DESDICHADO de Gérard de Nerval, traducido ao galego por André Da Ponte

EL DESDICHADO de Gérard de Nerval, traducido ao galego por André Da Ponte

UM SONETO TRADUZIDO DE GÉRARD DE NERVAL E ALGUMAS NOTAS SOBRE O POEMA E O POETA FRANCÊS..

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O soneto que hoje coloco perante vós é um dos mais celebrados das letras francesas e, também, um dos mais enigmáticos a começar polo próprio título.

Deste poema tão louvado existem dous manuscritos. Um deles é o chamado Lombard e foi o que enviou o poeta a Alexandre Dumas, junto com uma carta quando estava atacado por um abcesso de loucura em 1853. Este texto é o que usou o romancista para reproduzi-lo no seu artigo sobre Nerval publicado em Le Mousquetaire em 10 de dezembro de 1853 constituindo, assim, a primeira edição do soneto. É a este artigo ao que contesta Nerval na dedicatória de Les Filles du feu (As Filhas do fogo).

Vale a pena dizer algo em volta desse artigo de Dumas. Em 1841 o jornalista e amigo de Nerval Jules Janin escrevera uma nota necrológica sobre o poeta. Durante a crise de loucura de Nerval, em 1853, Alexandre Dumas publicou o artigo que temos mencionado onde, talvez com as melhores das intenções, embora um tanto alegremente, revelava ao público a precariedade da saúde mental do poeta. Nerval sempre teve um grande empenho em ocultar e justificar as suas crises de loucura, que na sua opinião, desacreditavam-no perante o público leitor, e esse artigo dum dos seus mais velhos amigos feriu-o profundamente.

Les Filles du feu, molho de contos e poemas vão aparecer em janeiro de 1854, quando Nerval estava internado na clínica do doutor Émile Blanche em Passy. Trata-se de oito contos longos (Angélique, Sylvie,Chansons et légendes du Valois, Jemmy, Octavie, Isis, Corilla, Emilie) e braçado de doce sonetos, Les Chimères (As Quimeras). No prólogo aproveita para acrescentar um prólogo de resposta a Dumas onde justapunha um texto já publicado, apresentando o projeto dum romance, Le Roman tragique (O Romance trágico) que queria ser uma contrapartida do Roman comique (Romance cômico) de Scarron, mas nunca, de que se saiba, chegou a escrevê-lo.

Porém, deixando isto e indo para o soneto, digamos que há um segundo manuscrito que é chamado Éluard (porque pertenceu ao poeta Paul Éluard), que foi o que usou para a impressão de As Filhas do Fogo. Este manuscrito tem várias notas da mão de Nerval que depois havemos de mencionar.

O texto de Lombard vai acompanhado – igual que o Éluard – do poema Artémis em duas folhas numeradas 2 e 3 e conserva-se junto com uma carta de três páginas que leva por título: La carte du Diable (A carta do demo). Trata-se do Arcano XV do Tarot, que se pode relacionar com o signo zodiacal dos Gêmeos, que é o de Nerval. Até mesmo alguns críticos têm assinalado alusões ao Tarot no texto deste soneto.

O título está em espanhol no original. Todos os comentaristas coincidem que Nerval apanhou-o do romance Ivanhoe de Walter Scott (capítulo VIII). Também, unanimemente, todos eles repetem que essa palavra significa “desditado” (Desinherited em Scott) e, por outro lado, Paul Bénichou tem demostrado que essa palavra em espanhol nunca significou o que escreveu o romancista inglês. Cabe a dúvida se Scott deu com certeza essa tradução. No capítulo VIII de Ivanhoe pode se entender que é o conjunto do debuxo do escudo – um carvalho desarraigado e o lema El Desdichado – o que vem significar o deserdado, e não diretamente essa palavra com a acepção que tem em espanhol. E no capítulo XII, quando a multidão brada “Desditado! Desditado!”, Scott acrescenta precavidamente: “cuja palavra de ordem apanhavam do lema que levava o escudo do seu coudel.

No manuscrito Éluard o título é “A sina”.

VERSO 2: “Príncipe de Aquitânia” alude a uma das fantasias genealógicas de Nerval, que fazia derivar seu sobrenome (Labrunie) da Torre de Labrunie na Aquitânia e pretendia descer dum nobre dessa região.

VERSO 4: Há uma muito provável alusão ao célebre grabado A melancolia de Albrecht Dürer (Nuremberga, 21 de março de 1471 – Nuremberga, 6 de abril de 1528) que Nerval admirava.

VERSO 6: O Prausílipo é um lugar perto a Nápoles do que Nerval fez um dos seus símbolos obsessivos. Pola sua etimologia significa “cesse da dor”, que é uma alusão à morte. Por estar perto ao Vesúvio, o poeta associa-o com o fogo subterrâneo, um outro símbolo da sua mitologia pessoal. Além disto, perto dele acha-se o suposto túmulo de Virgílio, que encarna para Nerval todo o paganismo e o seu mistério, numa síntese de cultos ocidentais e orientais que anuncia o sincretismo mítico religioso do próprio Nerval. Finalmente, a região napolitana evoca sempre para o poeta o culto a Ísis (Ísis está em As Filhas do fogo), em que via não apenas o culto da Mulher (mãe e amante), embora o exemplo excelso dessa contaminação dos cultos e da unidade, sob diversas formas, das mesmas divindades, proba da unidade de toda a experiência religiosa da humanidade.

VERSO 8: Há no manuscrito Éluard uma nota de Nerval: Jardim do Vaticano, que ajuda a compreendê-lo como a imagem da união de paganismo e cristianismo.

VERSO 9: Amor é aqui o nome próprio: o deus romano; Febo está escrito à latina no manuscrito (Phoebus), o que é talvez alusão a Gaston Phoebus, uma das identidades imaginárias de Nerval; Lusignan é uma personagem histórica sobre o que se formou na Idade Média a lenda de Melusina, mulher serpe namorada deste personagem e que desaparece com um grito quando o amado, quebrando a promessa de não espreitá-la, surprende-a na sua forma de cobra (a etimologia de Melusina semelha ser Mère des Lusignans (Mãe dos Lusignans), passando por Merlusignans e Merlusine. Quanto o que diz de Biron, há um personagem de Shakespeare e vários nomes históricos com esse nome. Segundo Jean-Luc Steinmetz (Edições da Pléiade, 1993), trata-se do duque de Biron, almirante de Henrique IV decepado ao ser acusado de traição; em qualquer caso parece fazer parelha com Lusignan (ambos humanos), como Amor com Febo (deuses ambos), e simbolizar o amante da rainha como Lusignan o amante da sereia.

VERSO 10: Nota de Nerval no manuscrito Éluard: “Rainha Candacia”, nome genérico das rainhas de Etiópia. Alude então a Balkis, rainha de Sabá, outra personagem central na mitologia nervaliana.

VERSO 12: Refere, quase com total certeza, as crises de loucura (reduzidas no verso a duas), que Nerval comparou várias vezes com descensos para os infernos, e das que até então saíra triunfante (como Orfeu, mencionado no verso seguinte).

VERSO 14: Nota de Nerval à palavra Fada, no manuscrito Éluard: “Melusina ou Manto”; “fada” está usado, então, mais no sentido de feiticeira do que no sentido mais janota e hoje mais frequente.

O autor de Les Chimères (As Quimeras), apenas doze sonetos que lhe valeram a imortalidade, atravessado por uma doença fatal deixou o 24 de janeiro de 1855 uma nota para a sua tia: “Quando eu tenha triunfado de todo, terás o teu lugar no meu Olimpo, como eu tenho o meu lugar na tua casa”. Ao dia seguinte deambula por um Paris glacial, tenta conseguir dinheiro, ceia no mercado, perde-se na noite. Ao amanhecer topam-no pendurado numa sórdida ruela (hoje desaparecida) do velho Paris.

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EL DESDICHADO

Eu sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado

Príncipe de Aquitânia da Torre abolida:

Minha só Estrela morreu, – e meu laúde constelado

Porta em si o Sol negro da Melancolia.

Na Cova noturna, Tu que me tens consolado,

Devolve-me o Pausílipo e o mar da Italia,

A flor que gostava a meu peito desolado,

E a parra onde o Bacelo à Rosa se alia.

Sou eu Amor ou o Febo?… Lusignan ou Biron?

Minha frente enrubesce do beijo da Rainha;

Sonhei na Gruta onde a Sereia nada…

Duas vezes transpus o Aqueronte vencedor:

Modulando por vezes de Orfeu na lira

Os suspiros da Santa e os gritos da Fada.

Gérard de Nerval ( Paris, 22 de maio de 1808 – Paris, 25 de janeiro de 1855)

[A tradução está feita desde o texto publicado em “Une forêt de symboles. Une petite anthologie littéraire”, Les Éditions du Carrousel, Paris, 1999, página 316]

EL DESDICHADO

 

Je suis le Ténébreux, – le Veuf, – l’Inconsolé,
Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie :
Ma seule
Etoile est morte, – et mon luth constellé
Porte le
Soleil noir de la Mélancolie.

Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,
La
fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille où le Pampre à la Rose s’allie.

Suis-je Amour ou Phébus ?… Lusignan ou Biron ?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine ;
J’ai rêvé dans la Grotte où nage la sirène…

Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron :
Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée
Lers de ls soupia Sainte et les cris de la Fée.

Gérad de Nerval

Gustave Doré, A rua da Velha Lanterna. O Suicídio de Gérard de Neval. Litografia sobre papel em branco e negro de 1855.

http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/d/d1/Gustave_Dor%C3%A9%2C_La_Rue_de_la_Vieille_Lanterne_The_Suicide_of_G%C3%A9rard_de_Nerval%2C_1855.jpg

A BRAÑA DE BOEDO, por Antón de Guizán

A BRAÑA DE BOEDO, por Antón de Guizán

A homenaxe aos Tres da Lexía e a Alfonso Blanco en Santa Mariña, coincidín co naturalista de orixes vilaregas Manuel Freire, que ao pé do privilexiado mirador onde se levanta o monumento de Valdi, ensinoume desde o alto a Braña de Boedo e contoume que Guitiriz conta con unha das turbeiras máis importantes do estado, a Braña de Boedo, ao pé mesmo da capital municipal. Un humidal encadrado dentro do LIC “Parga-Ladra-Támoga” e que destaca pola riqueza da súa fauna (odonatos, anfibios e aves), a sua flora, con especies protexidas e outras próprias das brañas e algunha planta carnívora. No ano 2011 a Asociación de Amigos da Terra denunciou na administración a execución dunha drenaxe, que aumetaba as canles de desaugue e cavaba outras canles novas. O efecto máis inmediato desta acción foi a desaparición de numerosos puntos de auga estancada, moi favorables para a reprodución dos anfibios. Accións consecuencia da falta de protección para este importante espazo, mais incomprensíbel aínda cando falamos de Guitiriz como o concello da auga e da pedra.
Esa falta de declaración de espazo natural protexido, permitiu no seu momento tamén o emprazamento do polígono industrial de Guitiriz na cabeceira da braña, unha das turbeiras máis grandes da península e a mais importante de Galiza a pesares dese esquecemento ao que é sometida polas institucións científicas, consellerías, a deputación e o proprio concello.
A grande riqueza e diversidade dos compoñentes dos humidais fan que estes se atopen entre os ecosistemas máis complexos e produtivos constituíndo un valioso patrimonio cultural e natural e xogando un importante papel na conservación da biodiversidade e no desenvolvemento económico.
A Braña ten ademáis da súa riqueza natural, a sua própria história da interacción humana e mesmo lendas coma a da cidade asolagada recollida pola revista As nosas raíces de Xermolos no ano 2000 e da que se fixo eco a publicación A Galicia Encantada.
Sorprende ver como Guitiriz vive de costas ás súas próprias potencialidades naturais e etnográficas que poderían convertila nunha referencia pola inmensa riqueza que atesoura e que ten a obriga de protexer, riqueza que moitos dos seus veciños descoñecen ou só coñecen parcialmente.
No caso das Brañas de Boedo o primeiro paso debe servir a declaración como mínimo de “Humidal protexido” na rede de espazos naturais da Xunta de Galicia, e desenvolver nestas brañas as labores de investigación e divulgación necesarias para convertilas nunha das referencias naturais máis importantes do estado cos apoios e investimentos aos que a verdadeira importancia da turbeira de Guitiriz ten dereito. Camiño do segundo ano de peche do balneario, o concello precisa recuperar esa actividade emblemática e potenciar o enorme potencial natural que posúe para convertilo nun motor da súa economía e calidade de vida e as Brañas de Boedo son tesouro que se debe poñer en valor. Non hai un minuto que perder…

Antón Tenreiro Ferreiro
ANTÓN DE GUIZÁN