ARTE POÉTICA, de Borges, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

ARTE POÉTICA, de Borges, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

ARTE POÉTICA

Olhar o rio feito de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nós nos perdemos como o rio
E também que os rostos passam como a água.

Sentir que é a vigília um outro sonho
Que sonha não sonhar e que é a morte
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

Fitar no dia ou ver no ano um símbolo
Dos dias do homem e dos seus anos,
Converter o ultraje desses anos
Numa música, um rumor e um símbolo.

Olhar na morte o sonho, no ocaso
Um triste ouro, assim é a poesia,
Que é pobre e imortal. A poesia
Regressa como torna a aurora e o ocaso.

Por vezes polas tardes, uma face
Espreita-nos do fundo dum espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De verdor eterno, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e é cristal de um mesmo
Heráclito volúvel, que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

 

 

ARTE POÉTICA

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

De El Hacedor (1960)

 

De: “Obras Completas. 1941 – 1960”, Círculo de Lectores, Barcelona, 1992, página 440.

Foi confrontado o texto em espanhol com a edição das Obras Completas revista polo autor Emecé Editores, 1974, Buenos Aires, Argentina, página 845.

 

https://www.actualidadliteratura.com/wp-content/uploads/2008/07/Jorge-Luis-Borges.jpeg

A ADORMECIDA, de Paul Valéry, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

A ADORMECIDA, de Paul Valéry, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

A ADORMECIDA

para Lucien Fabre.


Que segredos no teu peito ardem, jovem amiga,

Alma por doce máscara aspirando uma flor?

De que vãos alimentos o teu ingénuo calor

Faz essa radiação, mulher adormecida?

 

Alentos, sonhos, silêncio, calma não vencida,

Tu triunfas, ó paz mais que o pranto mais potente,

Quando desse sono na onda grave plenamente

Conspira por cima o seio de tal inimiga.

 

Dorme, dourado monte de sombras e abandono.

Teu terríbel descanso é calcado de sono,

Ó cerva com longa languidez perto do laço,

 

Que apesar da alma ausente, ocupada nos desertos,

A tua forma ao ventre puro, o arroupa um braço,

Vela; Tua forma vela, e meus olhos abertos.

 

Paul Valéry, em “Charmes”. (1922)

 

LA DORMEUSE

À Lucien Fabre.


Quels secrets dans son cœur brûle ma jeune amie,

Âme par le doux masque aspirant une fleur ?
De quels vains aliments sa naïve chaleur
Fait ce rayonnement d’une femme endormie ?

Souffles, songes, silence, invincible accalmie,

Tu triomphes, ô paix plus puissante qu’un pleur,
Quand de ce plein sommeil l’onde grave et l’ampleur
Conspirent sur le sein d’une telle ennemie.

Dormeuse, amas doré d’ombres et d’abandons,

Ton repos redoutable est chargé de tels dons,
Ô biche avec langueur longue auprès d’une grappe,

Que malgré l’âme absente, occupée aux enfers,

Ta forme au ventre pur qu’un bras fluide drape,
Veille; ta forme veille, et mes yeux sont ouverts.

 

http://www.academie-francaise.fr/sites/academie-francaise.fr/files/styles/academie_immortal/public/valery.jpg?itok=SHZXObtv

UM POEMA DE PUSHKIN TRADUZIDO PARA GALEGO-PORTUGUÊS, por André Da Ponte

UM POEMA DE PUSHKIN TRADUZIDO PARA GALEGO-PORTUGUÊS, por André Da Ponte

Alexander Sergueievitch Pushkin (em russo: Алекса́ндр Серге́евич Пу́шкин; Moscovo, 26 de maio, calendário juliano; segundo o gregoriano:  6 de junho de 1799 — São Petersburgo, 29 de janeiro, segundo o calendário juliano; 10 de fevereiro de 1837, segundo o gregoriano).

O poema que deixo para todos vós é, talvez, o poema de amor mais conhecido do grande poeta russo. Escrito em 1829, ainda a historiografia e os eruditos dedicados ao estudo do magnífico poeta, romancista, dramaturgo e fundador da literatura russa moderna, andam pesquisando quem foi a musa e destinatária de tão fermoso poema. Aleksandr Pushkin não deixou nemhuma pegada (nem nos seus borradores, nem no original) de quem foi esta misteriosa desconhecida que lhe inspirou tão extraordinária obra.

O genial poeta cria ao longo do poema uma tensão emocional ao empregar  sabiamente os recursos de aliteração (o som do “L” no original acrescenta os delineamentos duma funda tristeza, à par de uma delicada ternura) junto com a.repetição da ideia “Eu amei-a” a par dum paralelismo sintáctico empregado com enorme talento faz deste grande poema um dos favoritos – se não é o predilecto – dentre as muitas e grandes obras criadas por este autor que tanta influência teria em escritores como Dostoievski, Gógol, Tiútchev ou Tolstoi ou em compositores como Chaikovski ou Musorgski.

Como sempre, o original vai embaixo da tradução.

 

Eu amei-a: talvez ainda haja amor

Na minha alma e nunca se apagou;

Embora não se preocupe mais por mim;

Não quero que nada a amargure.

Eu ameia-a em silêncio, desesperado

Afligido pola timidez, às vezes polos ciúmes;

Eu ameia-a com todo o meu coração, com todo o meu ser terno,

Que seja amada polo outro então espero.

(1829)

 

Я вас любил: любовь еще, быть может,

В душе моей угасла не совсем;

Но пусть она вас больше не тревожит;

Я не хочу печалить вас ничем.

Я вас любил безмолвно, безнадежно,

То робостью, то ревностью томим;

Я вас любил так искренно, так нежно,

Как дай вам бог любимой быть другим.

 

Александр Пушкин

(1829)

 

A MORTE DE PUSHKIN, pintura de Dmitry Anatolievich Belyukin

 

https://img-fotki.yandex.ru/get/6107/44617652.cb/0_6d86f_3bc99832_XXL

EL…

EL…

EL…

El… non era poeta,

mais nas noites frías e solitarias

cando o vento laiaba por entre as contras…

escribía versos.

Fermosas verbas que o corazón lle ía dictando.

Eran soños de amor…

por aqueles ollos da cor do ceo

que fixeron feitizo… no seu ser.

El… non era poeta,

mais por entre os seus dedos

saían as letras como a auga crara da fonte,

tinguidas pola luz das estrelas

nunha noite de Xaneiro.

Non, non era poeta,

mais tiña a habilidade de enfiar soños

cos latexos do corazón,

latexos que se tornaban laios tristes

por aquela á que lle agasallara a alma enteira…

unha noite de lúa chea.

E non era poeta,

pero fixo da súa lembranza

a máis fermosa das poesías…

Um poema do genial poeta russo Alexandr Pushkin vertido para o galego-português por André Da Ponte

Um poema do genial poeta russo Alexandr Pushkin vertido para o galego-português por André Da Ponte

O poema que coloco hoje para a vossa consideração é um dos poemas mais recitados dentre toda a imensa, e riquíssima aliás, literatura russa. Escrito por Pushhin se inspirando numa mulher da nobreza czarista do seu tempo, Anna Petrovna Kern – uma das muitas com as  que  o grande poeta galanteou ao longo da sua curta, embora muito activa, vida-.

Sobre este poema o compositor Mihaíl Ivánovich Glinka (1804 – 1857) compôs uma elegante obra que convido escuiteis na voz do barítono russo falecido ainda não há muito tempo, Dmitri Khovorostovski (Дмитрий Хворостовский) [O link vai embaixo do texto original em russo].

A***

Lembro o mágico momento:

apareceste perante mim,

como uma efémera visão,

como um génio de sublime beleza.

 

Nos momentos de desesperada tristeza

nas soçobras da barulhenta vaidade,

ecoava a ternura da tua voz,

e o sonho os teus queridos feitios fazia-me ver.

 

Os anos se passaram. O arrebato das trovoadas

dispersou os meus antigos sonhos,

e esqueci a ternura da tua voz,

as tuas formas encantadoras.

 

Na soidade e negrura do isolamento

os meus dias se arrastavam em silêncio,

já sem inspiração nem fé,

sem lágrimas, sem vida, sem amor.

 

A minha alma acordou de novo:

e outra vez apareceste tu,

como fugaz visão,

igual a um génio de sublime beleza.

 

E palpita ébrio o coração,

e volta surgir de novo para ele

a inspiração e a fé,

a vida, as lágrimas e o amor.

 

 

 

(1825)

Я помню чудное мгновенье:
Передо мной явилась ты,
Как мимолетное виденье,
Как гений чистой красоты.

 

В томленьях грусти безнадежной,
В тревогах шумной суеты,
Звучал мне долго голос нежный
И снились милые черты.

 

Шли годы. Бурь порыв мятежный
Рассеял прежние мечты,
И я забыл твой голос нежный
Твои небесные черты.

 

В глуши, во мраке заточенья
Тянулись тихо дни мои
Без божества, без вдохновенья,
Без слез, без жизни, без любви.

 

Душе настало пробужденье:
И вот опять явилась ты,
Как мимолетное виденье,
Как гений чистой красоты.

 

И сердце бьется в упоенье,
И для него воскресли вновь
И божество, и вдохновенье,
И жизнь, и слезы, и любовь.

 

 

 

https://youtu.be/mEel0CCtFOo

 

 

 

RETRATO DO POETA realizado em 1827 polo pintor romântico Vasily Andreevich Tropinin. (Korpovo , província de Novgorod, 19 [30] de março de 1776 Moscovo, 3 [15] de maio de 1857).

 

 

https://1.bp.blogspot.com/-lVEHkQ9HY1E/WKtxfaODWeI/AAAAAAAAKko/asFv28CBWbE9nbSHBDRkEjCKmSi24E7fgCLcB/s1600/002.jpg