VERSOS DOURADOS, de Gérard de Nerval, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

VERSOS DOURADOS DE GÉRARD DE NERVAL

         Gérard de Nerval, cujo verdadeiro nome foi Gérard Labrunie, nasceu em Paris em 22 de Maio de 1808. Nerval foi criado em Mortefontaine (em Valois) na propriedade de seu tio-avô por causa da ausência de seus pais (seu pai recebeu um posto médico no Grande Exército Napoleônico e sua mãe morreu em 1810). Em 1814, seu pai retornou à França e Gérard de Nerval ingressou no Charlemagne College, em Paris. Durante os seus estudos parisienses, interessou-se pola literatura alemã, da qual foi um excelente tradutor: com apenas vinte anos, traduziu o Fausto de Goethe. No rescaldo da “Batalha de Hernani”, durante o qual Nerval se coloca ao lado de Théophile Gautier, frequenta regularmente a boêmia parisiense e publica na década de 1830 os seus primeiros Odelettes. Em 1837,  apaixona-se por Jenny Colon que morrerá em 1842. Nerval viajou para o Oriente em 1843 por mais de doze meses. Por dez anos trabalhou em editoras e jornalismo. A partir de 1853, Nerval sofreu ataques de demência e repetidas estadias na clínica mental. Conhece alguns momentos lúcidos durante os quais escreve Sylvie, as Filhas do Fogo e as Chimères (1854). Em 25 de janeiro de 1855, foi encontrado pendurado num portão de ferro na Rua da Velha Lanterna (Rue de la Vieille Lanterne), hoje desaparecida, em Paris (atual Place du Châtelet).

         Les Chimères (As Quimeras) são um conjunto de doze sonetos: El Desdichado, Myrtho, Hórus, Anteros, Délfica, Diana, Cristo no monte das Oliveiras e Versos dourados (Cristo no monte das Oliveiras inclui, ele só, cinco sonetos, que podem ser lidos aqui: http://culturaliagz.com/?s=Cristo+no+monte+das+oliveiras). Parece que o número doze foi selecionado intencionalmente por Nerval, de acordo com o simbolismo bíblico das doze tribos de Israel ou, no Novo Testamento, identificado com os doze apóstolos que vão atrás de Jesús.

         As quimeras marcaram desde o seu aparecimento a história da poesia francesa pola linguagem desenvolvida e pola poderosa força poética emanada. Apesar da clareza da linguagem empregada polo grande poeta, o significado profundo dos poemas ainda fica escuro hoje. Muitos críticos e historiadores da literatura ainda estão estudando esses poemas para tentar descobrir a presença de supostas chaves, geralmente simbólicas ou esotéricas. Algumas dessas chaves são obviamente biográficas: El Desdichado (já postado em CulturaliaGZ (aqui: http://culturaliagz.com/?s=G%C3%A9rard+de+Nerval) refere-se a duas crises nervosas em Gerard de Nerval, Délfica mantém a memória da jovem inglesa que Nerval encontrou na Baía de Nápoles… A inspiração do poeta se colocou no sincretismo que sempre marcou o seu pensamento: grande leitor das obras esotéricas de alquimistas, o Iluminismo ou certos filósofos, alimentou uma intuição panteísta e mística que justifica no último poema na coleção, Versos dourados: Homem, pensador livre!… que é o poema que traduzimos aqui para galego-português para conhecimento e aproveitamento dos leitores.

         Ao ler a sua dedicação a Alexandre Dumas, parece que Nerval reivindica esse hermetismo. Escreveu que os poemas das quimeras “perderiam o seu encanto se fossem explicados, se fosse possível, concedam-me polo menos o mérito da expressão; A última loucura que me resta será acreditar em mim como poeta: cabe aos críticos curar-me”.

         Nerval transformou-se, deste jeito, no heraldo de Mallarmé e da estética surrealista.

         O poema foi tirado da edição “Les Filles du feu”, Michel Lévy frères, 1856 (página 298).

VERSOS DOURADOS

O que! tudo é sensível!

PITÁGORAS

Homem, livre pensador! Tu serás o só que pensa

neste universo onde a vida deslumbra em cada mente?

Tuas forças matém a liberdade obviamente,

Mas todos os teus conselhos o universo dispensa.

Enobrece no animal o espírito que fermenta:

Cada flor é a alma da Natureza florescente;

Um mistério de amor no metal dorme residente;

«Tudo é sensível!» E em teu ser grande se apresenta.

Suspeita, na parede cega, um olhar que te espia:

porque à própria matéria encontra-se um verbo unido…

e não te sirvas dela para uma rotina impia!

Quase sempre, no escuro, reside um Deus escondido;

E como um olho coberto por um veu é nascente,

Há sob casca de pedras uma alma pura crescente!

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VERS DORÉS

Eh quoi! tout est sensible!
PYTHAGORE

Homme, libre penseur ! te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?
Des forces que tu tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes conseils l’univers est absent.

Respecte dans la bête un esprit agissant:
Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;
Un mystère d’amour dans le métal repose;
« Tout est sensible ! » Et tout sur ton être est puissant.

Crains, dans le mur aveugle, un regard qui t’épie:
À la matière même un verbe est attaché…
Ne la fais pas servir à quelque usage impie!

Souvent dans l’être obscur habite un Dieu caché;
Et comme un œil naissant couvert par ses paupières,
Un pur esprit s’accroît sous l’écorce des pierres!

http://www.escritopara.es/blog/wp-content/uploads/2013/02/gerard_nerval.jpg

QUANDO FORES VELHINHA, À NOITE À LUZ DA VELA.., de Pierre Ronsard, tradución galego-portuguesa de André Da Ponte

SONETO DE PIERRE RONSARD E ALGO SOBRE O POETA

            Pierre de Ronsard (nascido em setembro de 1524, no Castelo de La Possonnière, perto da aldeia de Couture-sur-Loir na Vendôme, ao norte de Loir-et-Cher, a ambos lados do rio Loir, e falecido em 27 de dezembro de 1585 no convento de Saint-Cosme em Touraine), é um dos mais  importantes, senão é o mais excelso, dos poetas franceses. do século XVI.

            Denominado como “Príncipe dos poetas e poeta dos príncipes”, Pierre de Ronsard é uma das figuras mais importantes na literatura poética europeia. Autor dum vastíssimo trabalho que, em mais de trinta anos, focou tanto em poesia comprometida e oficial no contexto de guerras religiosas com Hinos e Discursos (1555-1564), como no canto épico com La Franciade (1572) ou a poesia lírica com as coleções Les Odes (1550-1552) e Les Amours (Les Amours de Cassandre, 1552, Continuation des amours, 1555 e Sonnets pour Hélène, 1578).

            Tentando imitar os autores clássicos greco-latinos, Ronsard primeiro usou as formas da ode como no belíssimo poema Mignonne, allons voir si la rose… (Fermosa, vamos ver se a rosa…) e o hino, mas ele usará cada vez mais o soneto que fora levado para a França por Clément Marot em 1536, usando primeiramente o decassílabo: Mon dieu, mon dieu, que ma maistresse est belle!,  (Meu deus, meu deus, que minha amante é linda!), embora mais tarde inventado para a poesia francesa o moderno metro do alexandrino: Quand vous serez bien vieille, soneto que vimos a traduzir.

            A coleção de poemas Sonnets por Hélène foi encomendada pola rainha Catarina de Medici para a sua protegida e dama de honra, Hélène de Fonsèque (filha de René de Fonsèque, barão de Surgères e Anne de Cossé), para consolá-la pola perda de seu amante na guerra. Ronsard comprometeu-se a escrever-lhe uma coleção de sonetos, na forma do madrigal, em que elogia a sua beleza comparando-a com a bela Helena, heroína da Guerra de Tróia.

            Uma grande diferença de idade separava Hélène de Ronsard, que tem na altura quase 45 anos, quando se encontram. Foi a rainha que encorajou Ronsard a cortejar Hélène por interposição. A obra é um trabalho de maturidade que celebra um amor platônico por uma mulher que permanece indiferente, ficando como uma obra mestra, não só da poesia francesa, mas de toda a arte ocidental. Ronsard baseando-se na influência que exercia a longa e poderosa sombra de Petrarca e a figura mitológica de Helena de Tróia constrói uma obra cheia de lirismo, languidez e saudade.

            Os Sonetos para Hélène foram publicados em 1578 numa nova edição de Des Amours.

            Ronsard é um grande poeta que não deixa de admirar-nos, que nos surpreende, que nos causa emoção polo seu sublime amor e por uma música nos seus versos duma brilhantez e duma música que só pode ser ronsardiana e que nos transporta até a sua alma sabendo, como ele sabe, que as mulheres amadas hão ser imortais quando delas apenas fique poeira e esquecimento.

            A sua suma elegância, a brilhantez do seu verso cincelado a golpe de fulgor na escolha da palavra justa, o acento ajustado e um rasgamento sem igual em toda a literatura poética da Europa, fazem dele um poeta imprescindível em cada biblioteca e em cada memória. Um poeta que, através das suas inúmeras doenças: surdez, reumatismo, doença de gota, insónia, deu, para as gerações seguintes, uma obra que transpassará os séculos, palavras acesas que chegam até nós ressoando desde factos concretíssimos como um eco que nos atravessa pois para ele somente a escritura poética permite guardar a lembrança e imortalizar à bem-amada.

            Rosard é único, excepcional, singular, incomum e lê-lo é reviver uma das vozes mais belas e autênticas, mais fundas e verdadeiras de toda a poesia.

            Nota.- O texto em francês, na ortografia modernizada, foi colhido de “Une forêt de symboles. La Poésie, une petite anthologie littéraire”, Les Éditions du Carrousel, Paris, 1999, página 117.

QUANDO FORES VELHINHA, À NOITE À LUZ DA VELA…

Quando fores velhinha, à noite à luz da vela,

Sentada ao pé do lume, enovelando e fiando,

Dirás, cantando meus versos, e te maravilhando:

“Ronsard me solenizava no tempo em que era bela.”

E livre do trabalho, então, não há existir aquela,

Que ao cabo dos lavores, e meio dormitando,

Quando o meu nome escuitar não vaia despertando

Ao louvar já o esplendor que o teu nome revela.

Sob o terra dura estarei e, fantasma desossado,

Entre as sombras dos mirtos ficarei, já repousado;

E tu hás estar em casa, velha, débil e abatida,

Chorando o meu amor e polo teu impassível desdém.

Vive tu, sem mim aguardar, polo dia que vem:

e colhe desde hoje as rosas que vai dando-te a vida.

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QUAND VOUS SEREZ BIEN VIEILLE, AU SOIR À LA CHANDELLE…


Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle,
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz chantant mes vers, en vous émerveillant:
«Ronsard me célébrait du temps que j’étais belle.»

Lors vous n’aurez servante oyant telle nouvelle,
Déjà sous le labeur à demi sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s’aille réveillant,
Bénissant votre nom, de louange immortelle.

Je serai sous la terre et, fantôme sans os,
Par les ombres myrteux je prendrai mon repos;
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m’en croyez, n’attendez à demain:
Cueillez dès aujourd’hui les roses de la vie.

http://www.lesvraisvoyageurs.com/wp-content/uploads/2018/12/Pierre-de-Ronsard-Anonyme-du-XVII-si%C3%A8cle-Mus%C3%A9e-de-Blois.jpg

O poema “Pedra negra pedra branca”, de César Vallejo, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

UM POEMA DE CÉSAR VALLEJO VERTIDO PARA O GALEGO-PORTUGUÊS E UMA NOTÍCIA SOBRE A BREVE E ATORMENTADA VIDA

César Abraham Vallejo Mendoza (Santiago de Chuco, Perú, 16 de março de 1892 – Paris, 15 de abril de 1938).

            Neto de mulheres indígenas, toda a sua vida foi marcada pola condição de pobreza, de desamparo, de mestiço e de perseguido militante de esquerda. Seu pai tinha um emprego razoavelmente cómodo, não obstante tendo uma família numerosa, não possuía renda suficiente para dar uma vida confortável aos filhos.

            César Vallejo ingressou em 1910 na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Trujillo, mas não conseguiu formar-se por causa da falta de meios económicos, passando a manter-se como tutor do filho dum fazendeiro e entre outros empregos, como assistente na administração duma fazenda de açúcar. A miséria vista durante esta época marcou as suas posições políticas.

            Em 1915 consegue, por fim,  tirar o título de professor em Trujillo, embora parte para a cidade de Lima por problemas amorosos. Conseguido o cargo de diretor duma escola de Lima, conhece ao poeta anarquista Manuel González Prada e publica o seu primeiro grande livro de poesia, “Los Heraldos Negros” que alcança boa acolhida nos círculos intelectuais de Lima.

            Durante uma visita à sua cidade natal em 1920 e, no meio dum confuso acontecimento em que uma autoridade que agia como sub-prefeito local sofreu um disparo, o poeta viu-se preso injustamente durante três meses ao ser acusado como instigador intelectual à revolta contra as autoridades, apesar dos múltiplos protestos dos círculos intelectuais limenhos.

            Ficando em liberdade condicional, volta para Lima e em 1922 publica o livro de poemas “Trilce” que escrevera durante a sua passagem polo cárcere. A tiragem foi apenas de 200 exemplares saídos do prelo por conta do poeta e custando mais valor a sua impressão do que o preço posto para a venda.

            No ano de 1923, animado por um amigo e temendo voltar à prisão muda-se para Paris, onde irá conhecer pintores e escritores como Antonin Artaud, Pablo Picasso e Jean Cocteau quem haveria desenhar um famoso retrato do poeta peruano. César Vallejo nunca mais voltaria para o Peru.

            Uma vida de miséria persegue ao poeta em Paris, onde apenas consegue um emprego numa gráfica, três anos depois, tendo quase morrido de fame. Após isso, o Governo Republicano Espanhol concede-lhe uma bolsa de estudos para poder terminar os estudos de direito que começara em Peru. É, por volta dos acontecimentos que se sucedem em toda a Europa e nomeadamente no Estado Espanhol que ele se achega ao marxismo, visitando a União Soviética em três ocasiões.

            Passa a viver junto com a francesa Georgette Philipart, que mais tarde, em 1934, se haveria converter na sua esposa, mas é preso e expulso da França no ano de 1930, com muita probabilidade por razões políticas, passando assim a viver no exílio no Estado Espanhol, porém cedo consegue a  permissão para voltar à França, onde já estava Georgette Philipart, que voltara em 1931 encontrando o seu apartamento totalmente destruído pola polícia francesa. Vallejo volta a Paris com uma mala de roupas muito usadas e mais nada.

            Durante a Revolução Espanhola e a posterior Guerra Civil, engaja-se com a causa dos trabalhadores. Chocado polos horrores da guerra, que pôde ver durante uma breve visita a Madrid, escreveu o livro militante e profundamente padecido “España, aparta de mí este caliz”, que o poeta não viu publicado durante sua vida, assim como o livro de 54 poemas “Sermón de la barbarie”, escrito na mesma época.

            Quando César Vallejo morre em Paris em 1938, dumas misteriosas febres, com um mau e pouco preciso diagnóstico, segundo sua esposa, o poeta estava numa condição de homem muito pobre.

            Eduardo Galeano tem-no chamado, com infinita razão, “o poeta dos vencidos”. Talvez a melhor homenagem que se lhe pode render a César Vallejo, – ao meu ver um dos poetas essenciais, junto com Pablo Neruda, da literatura hispano-americana do século XX – é lê-lo, hoje que estamos em tempos de misérias humanas e intelectuais.

            O poema foi tirado da edição “César Vallejo. Poesia Completa”, Edición crítica y exegética al cuidado de JUAN LARREA, Director del Centro de Documentación e Investigación «César Vallejo» de la Universidad Nacional de Córdoba (República Argentina) con la asistencia de FELIPE DANIEL OBARRIO, Fiscal de la Cámara Federal de la Nación Argentina, Barral Editores, Barcelona, 1978, página 579.  

Pedra negra pedra branca

Morrerei em Paris com aguaceiro

num dia do qual já tenho a lembrança.

Morrerei em Paris – daqui não saio –

Talvez uma quinta-feira, como é hoje, de outono.

Quinta-feira será, porque hoje, quinta-feira,

em que eu proso estes versos, dei os  úmeros

para o mal e, nunca como hoje, voltarei,

com todo o meu caminho, a ver-me só.

César Vallejo morreu, nele bateram

todos sem que lhes fizesse nada;

davam-lhe com força com um pau e duro

também com uma corda; são testemunhas

às quintas-feiras e os ossos do úmero,

a solidão, a chuva, os caminhos…

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Piedra negra sobre una piedra blanca

Me moriré en París con aguacero,

un día del cual tengo ya el recuerdo.

Me moriré en Paris — y no me corro —

Tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, jueves, que proso

estos versos, tos húmeros me he puesto

a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,

con todo mi comino, a verme solo.

César Vallejo ha muerto, le pegaban

todos sin que él les haga nada;

le daban duro con un palo y duro

también con una soga; son testigos

los días jueves y los huesos húmeros,

la soledad, la lluvia, los caminos…

https://img.europapress.es/fotoweb/fotonoticia_20170316073143_1920.jpg

Soneto de Joachim du Bellay traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

TRADUÇÃO DUM CÉLEBRE SONETO DO POETA FRANCÊS JOACHIM DU BELLAY.

        O primeiro grupo organizado, de que se tenha conhecimento, dentro da poesia francesa, é o denominado como Plêiade. Um grupo que à semelhança das sete estrelas do firmamento, foi composto polos poetas, Pierre de Ronsard, o próprio Joachim du Bellay, Jean-Antoine de Baïf, Rémy Belleau, Jean Dorat, Pontus de Tyard e Étienne Jodelle.

        O manifesto público desta constelação de grandes poetas foi a célebre Defesa e ilustração da língua francesa (1549) ensaio que redigiu o mesmo Du Bellay, mas foi a obra retumbante de Ronsard que alcançou um maior impacto, ao substituir o verso decassílabo italiano polo alexandrino que até hoje impera na poesia francesa.

        Joachim du Bellay nasceu por volta de 1522 em Liré, no Castelo de Turmelière, na região de Anjou. Naquela época era o rei da França Francisco I e o Renascimento estava crescendo, principalmente em termos de cultura e arte. Pertencia a uma família da velha nobreza e ficou órfão com 10 anos. Em 1547, enquanto estudava na Universidade de Poitiers, tornou-se amigo de Pierre de Ronsard e juntos foram para o Collège Coqueret em Paris, onde o helenista Jean Dorat lhes descobriu os autores clássicos greco-romanos e a poesia italiana. Ao redor deles formou-se o grupo poético que será conhecido em princípio como A Brigada e depois como a Plêiade.

        Entre 1553 e 1557, du Bellay tornou-se secretário, em Roma, do cardeal Jean du Bellay, conhecido diplomata e primo de seu pai. O poeta descobre em sua estada de quatro anos a cidade mítica da antiguidade, da qual só restam ruínas, esplendor e depravação. Desgosto e saudade tomaram posse do poeta, sentimentos que inspiram belas páginas como o célebre soneto que verto do francês para a nossa língua e que é tomado da coleção Les Regrets (Os Arrependimentos), segundo a edição «Une forêt de symboles. La Poésie. Une petite anthologie littéraire», Les Éditions du Carrousel, Paris, 1999, página 95.

        Em 1557 retornou à França e publicou As Antiguidades de Roma, os Vários Jogos Rústicos e Saudades (1558). Estas obras obtiveram um grande reconhecimento na época e serviram a Joachim du Bellay para participar da vida intelectual parisiense.

        Morreu repentinamente por aplopexia enquanto trabalhava no seu escritório da casa da rua Massillon de Paris, na noite de 1 de janeiro de 1560, quando tinha somente 37 anos de idade. Sabe-se que está enterrado na catedral de Notre-Dame de Paris, mas não se sabe onde é que ficam os seus ossos.

FELIZ QUEM, COMO ULYSSES, FEZ UMA BELA VIAGEM…

Feliz quem, como Ulisses, fez uma bela viagem,

Ou até como aquele que foi conquisar o Tosão,

E depois foi regressar, cheio de uso e de razão,

Para viver entre os pais o restante da passagem!

Quando eu voltarei rever, ai!, da minha aldeia a imagem,

As lareiras fumegando e qual será a estação

Em que enxergarei de novo minha pobre mansão,

Que vale mais para mim, que uma torre de homenagem?

Mais gosto de meus avós este meu lugar tranquilo,

Que de Roma os palácios com seu audacioso estilo,

Mais que do duro mármore me praz a ardósia fina:

Mais estimo o meu Loire gaulês, que o Tibre latino,

Mais o meu pequeno Liré, que o monte Palatino,

E muito mais do que o ar marinho, a doçura angevina.

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HEUREUX QUI, COMME ULYSSE, A FAIT UM BEAU VOYAGE…

Heureux qui, comme Ulysse, a fait un beau voyage,
Ou comme cestuy-là qui conquit la toison,
Et puis est retourné, plein d’usage et raison,
Vivre entre ses parents le reste de son âge!

Quand reverrai-je, hélas, de mon petit village
Fumer la cheminée, et en quelle saison
Reverrai-je le clos de ma pauvre maison,
Qui m’est une province, et beaucoup davantage?

Plus me plaît le séjour qu’ont bâti mes aïeux,
Que des palais Romains le front audacieux,
Plus que le marbre dur me plaît l’ardoise fine:

Plus mon Loire gaulois, que le Tibre latin,
Plus mon petit Liré, que le mont Palatin,
Et plus que l’air marin la doulceur angevine.

http://www.histoireeurope.fr/ImgJ/Joachim%20du%20Bellay_2.PNG

O poema OS CORVOS, de Arthur Rimbaud, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

DAS MINHAS TRADUÇÕES

UM POEMA DE ARTHUR RIMBAUD TRADUZIDO PARA GALEGO-PORTUGUÊS

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud(Charleville, 20 de outubro de 1854 — Marselha, 10 de novembro de 1891).

O texto original em francês foi tomado de: Œuvres complètes, Éditions Jean-Claude Lattès, Paris, 1987, páginas 81-82

OS CORVOS

Senhor, quando os terrenos ficam frios,

E os lugarejos assentam desnudos,

Os dilatados ângelus são mudos…

Em cima dos arvoredos vazios

Abaixam-se dos ares sumptuosos

Os queridos corvos deliciosos.

Exército estranho de gritos secos

Ventos frios despejam vossos ninhos!

Vós, ao longo dos rios maninhos,

Nos antigos calvários e nos becos,

Sobre as covas e acima dos canais

Debandai-vos, e logo ali ficais!

Aos milhares, polos campos ermos,

Por onde os mortos estão recém-sepultos

Tornai, polo inverno, os vossos vultos

Para cada um de nós-outros nos vermos!

Tornai-vos consciência que nos leva,

Funeral pássaro negro da treva!

Mas, santos do céu, no topo da fronde,

Paus perdidos que à noite encantam,

Libertai esses pássaros que cantam

Aos que no profundo o bosque esconde,

Na erva donde não se pode fugir

A derrota do tempo sem porvir.

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LES CORBEUAX

Seigneur, quand froide est la prairie,

Quand dans les hameaux abattus,

Les longs angelus se sont tus…

Sur la nature défleurie

Faites s’abattre des grands cieux

Les chers corbeaux délicieux.

Armée étrange aux cris sévères,

Les vents froids attaquent vos nids!

Vous, le long des fleuves jaunis,

Sur les routes aux vieux calvaires,

Sur les fossés et sur les trous

Dispersez-vous, ralliez-vous!

Par milliers, sur les champs de France,

Où dorment des morts d’avant-hier,

Tournoyez, n’est-ce pas, l’hiver,

Pour que chaque passant repense!

Sois donc le crieur du devoir,

Ô notre funèbre oiseau noir!

Mais, saints du ciel, en haut du chêne,

Mât perdu dans le soir charmé,

Laissez les fauvettes de mai

Pour ceux qu’au fond du bois enchaîne,

Dans l’herbe d’où l’on ne peut fuir,

La défaite sans avenir.

*Autoría da imaxe:

https://andreshax.files.wordpress.com/2014/11/rimbaud.jpg?w=640

A CHAMADA DE BRIGID, de Jesús Trashorras

Culturalia GZ e NPG comprácense coa publicación dun novo poemario de Jesús Trashorras, A CHAMADA DE BRIGID. Este libro de poemas, do autor nado na parroquia de Vilariño en Castroverde, súmase a outros títulos nos que xa amosou a súa fondura poética, tal é o caso de O silencio do orballo.

O autor en Penas de Rodas

Jesús Trashorras Nogueira naceu no ano 1956 en Castroverde (Lugo). Diplomado en EXB e licenciado en Ciencias da Educación. Exerceu de mestre en varias localidades do Occidente de Asturias, maiormente na Veiga, e na última época en escolas de localidades preto de Lugo: Corgo, Friol, Nadela. Actualmente está xubilado.

Participou en varios proxectos colectivos: MesturasRoteiros das artesRoteiro das artes internacional, revista XistralLibro homenaxe a Manuel MaríaPortugalicidades.

En marzo de 2017 publica o seu primeiro poemario O silencio do orballo, que se atopa esgotado na actualidade. Este é polo tanto o seu segundo libro de poemas. Poemas inspirados nunha viaxe realizada no verán do 2016 por terras irlandesas.

Pódese seguir a súa creación literaria a través do seu muro de facebook. https://www.facebook.com/profile.php?id=100006603616638 ou ben no seu blog Unha gavela de versos http://jesustrashorras.blogspot.es

Como xa se adiantou, o xermolo dos versos que compoñen A CHAMADA DE BRIGID atopámolo nas palabras do propio autor, recollidas na Introdución do libro:

“No verán de 2016, xunto con dous amigos emprendemos unha viaxe no noso propio
coche, camiño da Illa Esmeralda. Chegamos ao porto de Roscoff, na Bretaña francesa
e alí embarcamos no ferry “Oscar Wilde” (axeitado nome o seu) rumbo a Rosslare e
desde alí a Wesford, cidade natal do escritor John Banville, onde pasamos a primeira
noite. Logo viría un percorrido por toda a illa, ata rematar novamente en Wesford.”

No seguinte enlace pódese acceder ao contido deste poemario.

Medre a Poesía!