O poema VLADIMIR ILICH LENINE, de Maiakovski, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

André Da Ponte ofrécenos, desta volta, unha versión en galego-portugués o poema Vladimir Ilich Lenine, de Vladimir Maiakovski. 

O lector terá a oportunidade de gozar coa versión e o orixinal deste poema no seguinte arquivo anexo.

Ademais dunha pequena introdución e unha mínima bibliografía -que foi usada para a redación do itinerario vital do xenial poeta-, acompañando todo con notas sobre personaxes, lugares e acontecementos históricos que resultan difíciles para o lector galego. Segundo a opinión do propio André Da Ponte atopámonos diante dun exemplo de poema épico deste poeta ruso que marcou con intensidade non só a literatura rusa moderna, mais tamén a universal.

Nesta edición en PDF obsérvase a particularidade de que se a xente desexa imprimir o libro, pode confrontar o texto en ruso, que sempre ficará á esquerda da impresión, co texto en galego que ha de ficar sempre á dereita.

ULM 1592, de Bertolt Brecht, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

ULM 1592

            Ulm 1592 é o título dum poema escrito em 1934 por Bertolt Brecht e publicado por vez primeira em 1937. O poema é a justaposição das visões do mundo dum bispo e um alfaiate. Os acontecimentos situa-os o poeta na cidade do sul da Alemanha, Ulm, e faz parte do livro Histórias do Calendário.

            O texto foi criado em conexão com a trágica história de Albrecht Ludwig Berblinger (conhecido como O xastre de Ulm, nascido em 24 de junho de 1770 em Ulm e falecido na mesma cidade em 28 de fevereiro de 1829). Albrecht Ludwig Berblinger mostrou interesse precoce nas cousas mecânicas. Mas foi forçado a fazer o aprendizado de alfaiate, embora ele preferisse se tornar relojoeiro. No seu tempo livre, também era ativo como inventor e estava constantemente na ideia de construir um aparato que conseguisse voar. Berblinger, portanto, queria demonstrar o vôo do seu engenho. O teste de voo foi a partir duma parede treze metros acima do Danúbio e terminou com Berblinger afundando diretamente no Danúbio e sua tentativa falhando miseravelmente. O acontecimento resultou na sua imersão numa funda crise e desde então, para as gentes de Ulm, ficou como um trapalhão.

            O poema mosta a colisão de duas visões de mundo. A Igreja encontra-se frente ao pensamento livre, a ciência, a fé no progresso e na renovação. O bispo é um representante da velha ordem, o que significa, portanto, que é um conservador. Isto pode se ver no facto de afirmar que nenhum ser humano vai voar nunca e não aceita os descobrimentos novos. O Bispo assenta-se convencido, após morrer o alfaiate produto da queda e não funcionar o experimento. O alfaiate, em troca, é a ilustração duma nova visão de mundo, com a ciência no alvo a descobrir cousas novas, o que pode ser visto polo facto de que tentou voar, embora naquele tempo fosse inimaginável. Estava tão convencido da sua invenção, queria mostrar as suas asas em público, mesmo a custo da sua própria vida, que o levará diretamente para o escárnio. «O telhado da grande igreja» manifesta a perspectiva do bispo, o seu tamanho e o poder que a igreja representa. O verso «Na praça da igreja dura», a força da igreja é enfatizada. Também mostra que aqueles que resistem à reforma da igreja serão condenados: O alfaiate morreu no «chão duro da igreja». “Os sinos tocarão” indica a morte do alfaiate que é «estampado» no chão. Claro, o som dos sinos também pode criar uma nova era representando que não só deve aderir-se à velha ordem, mas perceber que é hora de criar cousas novas e aprender.

            Por que o poema tem o nome de Ulm em 1592, embora tenha sido concebido em 1934 por Bertolt Brecht? Poderia ser pensado em relação com a descoberta da América por Colombo que ocorreu em 1492. O descobrimento apontou para uma nova era, mostrando que nunca se deve parar de pesquisar e descobrir algo novo, mesmo que não funcionar em primeiro lugar e ficarmos a gente sem esperança num mundo melhor. Antes de Colombo descobrir a América, todos pensavam que a terra era plana (no pensamento medieval, embora já os matemáticos, pensadores e geómetras hindues, no texto Suria Siddhanta do s.X a.C. insinuava-se que a Terra era redonda e no livro dos antigos egípcios “A morada Oculta”, do século XV a. C. também argumentava-se a mesma razão. Mais tarde, sábios gregos como Platão, Aristóteles e Eratóstenes (séculos IV e III a. C.) defenderam também que os planetas eram esféricos, mas anos depois a Bíblia e os seus intérpretes, encarregaram-se de jogar essas ideias no chão e não seria até Copérnico e Galileu (séculos XVI e XVII) que o ser humano começou a perceber quão verdadeiramente é o nosso planeta e o universo que o rodeia. O mesmo se aplica às aeronaves, o alfaiate também falhou miseravelmente na sua tentativa e ninguém acreditava nele, mas hoje é possível voar ao redor do mundo de avião. Seria, portanto, fiar nas pessoas como o alfaiate, em troca das forças sociais muito poderosas que, hoje em dia ainda pensam em fazer recuar a história (por isso é que são chamados de reaccionários) para uma nova Idade Média.

Este poema foi musicado em 1937 polo compositor Hanns Eisler, (Leipzig, 6 de julho de 1898 – Berlim, 6 de setembro de 1962).

A primeira edição viu a lume em 1939 em Dinamarca, onde o poeta estava exilado, dentro do livro Svendborger Gedichte, (Poemas de Svendborg), coleção poética de Bertolt Brecht, na casa do editor suíço Wieland Herzfelde.

O texto postado em alemão foi apanhado da edição ROWOHLT, Hamburgo, abril de 1975, página 42. É sobre este texto que vai a tradução.

ULM

1592

«Bispo, eu posso voar»,

Disse o alfaiate ao bispo.

«Veja como faço eu isso!»

E ele subiu com essas cousas

Que o galo tem para balançar

Para o grande telhado da igreja.

O bispo continuou.

«Tudo isso é falsidade,

O homem não é um pássaro

Nunca um homem vai voar».

Disse o bispo ao alfaiate.

«O alfaiate é diferente»,

As pessoas disseram ao bispo.

«Foi uma loucura.

As suas asas estão quebradas

E ele está despedaçado

Na praça da igreja, dura.

«Os sinos devem tocar,

Não era mais que loucura,

O homem não é um pássaro

Nunca um humano vai voar»

ULM

1592

«Bischof, ich kann fliegen»,

Sagte der Schneider zum Bischof.

«Paß auf, wie ich’s mach’!»

Und er stieg mit so nen Dingen,

Die aussahn wie Schwingen

Auf das große, große Kirchendach.

Der Bischof ging weiter.

«Das sind lauter so Lügen,

Der Mensch ist kein Vogel,

Es wird nie ein Mensch fliegen»,

Sagte der Bischof vom Schneider.

«Der Schneider ist verschieden»,

Sagten die Leute dem Bischof.

«Es war eine Hatz.

Seine Flügel sind zerspellet,

Und er liegt zerschellet

Auf dem harten, harten Kirchenplatz.:

«Die Glocken sollen läuten,

Es waren nichts als Lügen,

Der Mensch ist kein Vogel,

Es wird nie ein Mensch fliegen»

A CRUZADA DOS PEQUENINHOS, de Bertolt Brecht, traducida ao galego-portugués por André Da Ponte

Berlin 14.03.2008 Grafik von Herbert Sandberg “zu Brechts ‘Kinderkreuzzug'” aus dem Jahr 1979, 61,1×47,6cm dreifarbiger Holzschnitt auf schwarzem Papier, handsigniert, 1/15. Fach-Nr.I

A CRUZADA DOS PEQUENINHOS

BERTOLT BRECHT

            Bertolt Brecht escreveu Kinderkreuzzug (A cruzada dos pequeninhos) em novembro de 1941 durante o seu exílio nos Estados Unidos onde fora morar em julho desse mesmo ano. A primeira aparição foi no jornal The German American, mas há indícios certos de ter origem remota na relação com Margaret Steffin – uma das suas múltiples amantes – que haveria morrer de tuberculose em Moscovo em 1941. O poema viu ao lume no livro Kalendergeschichten (Histórias do calendário) em 1949. Brecht voltou publicar o poema na coleção Hundert Gedichte (Cem poemas) embora encurtado de 47 versos para 35. Esta última edição, mais abreviada, foi dedicada na memória de Margaret Steffin.

            Baseado o poema na Cruzada das Crianças de 1212, narrativa entre meio história, meio lenda, de um grupo de pequeninhos errando para o Sul da Itália com o objectivo de ir para a Terra Santa para libertar o Santo Sepulcro de Jerusalém e ganhar o céu (a história refere-a em admirável prosa o extravagante historiador inglês Steven Runciman), mas aqui o poema brechtiano está imbuído de esperança em “encontrar a terra onde houvesse paz”.

            A Cruzada dos Miúdos de 1939 também, como a sua antecedente medieval, tinha o sul como destino, embora não a Terra Santa senão zonas mais cálidas porque o inverno de 1939 foi muito frio e mortal. Em ambas cruzadas os pequenos jamais haverão chegar ao seu destino e morrerão no caminho.

            Bem pode ser que a redação final do poema fosse concebida por uma notícia de jornal que assinalava que soldados do Exército Vermelho Soviético acharam no Leste da Polónia tres meninos e, ainda que os pequeninhos apreenderam a se comportar como soldados treinados, nunca chegaram a Bilgoray (município polonês no Sul pertencente à voivodia de Lublin), onde estava o seu destino final.

            É de notar que o compositor, violinista, pianista e maestro británico Benjamin Britten (Loestot, 22 de novembro de 1913 – Aldeburgh, 4 de dezembro de 1976), figura central da música inglesa do século XX, reescreveu o poema de Bertolt Brecht com estreia  na sua versão inglesa em 1969 na catedral de St. Paul de Londres. Uma versão para o alemão, por sua vez da variante inglesa, foi interpretada em 1980 por 50 meninas e pequeninhos da “Coral Juvenil de Braunschweig” sob a direção do maestro Manfred Ehrhorn. A obra foi gravada em disco de longa duração e em 7 de março de 2012 reconstruída digitalmente.   

            A transcripção do texto em alemão, assim como a tradução, no meu caso, foi tirada da edição BERTOLT BRECHT, Gedichte und Lieder, Suhrkamp Verlag, Berlin und Frankfurt am Main 1963, p. 125 e sgg.

            Trata-se, não acho qualquer dúvida nisto, dum dos grandes poemas do século XX e um autêntico alegato em contra da guerra.

A CRUZADA DAS CRIANÇAS- 1939

(1942)

Bertolt Brecht

Na Polônia, no ano trinta e nove

Houve uma batalha sangrenta

Que a entulhos reduziu

Muitas cidades e aldeias.

A irmã perdeu o irmão,

A mulher perdeu o esposo;

A criança os pais não encontrou

entre as cinzas e escombros.

Nada veio da Polónia,

Nem notícia, nem carta.

Mas nos países orientais

Escuitou-se uma história estranha.

Contou-se que lá, no Leste,

caira uma grande nevada

e que uns meninhos emprenderam

na Polónia uma cruzada.

Mortos de fome, os meninhos

Em tropel avançavam

E se lhes juntaram outros pequenos

Nas aldeias devastadas.

Eles queriam das batalhas

fugir do pesadelo

E chegasse o dia no país

Em que a paz fosse um reino.

Houve entre eles um pequeno chefe,

que os tentou organizar.

mas tinha uma grande preocupação:

Não sabia como os guiar.

Uma rapariga de onze anos cuidava

de uma criança de quatro anos nada mais,

Ela teve tudo, como faz uma mãe,

Mas não um país onde houvesse paz.

Um pequeno judeu ia no pelotão

Com o seu colar de veludo.

Estava acostumado ao pão mais branco,

Porém agora comia o pão duro.

Também caminhava com eles

Um rapaz que sempre ficava à parte.

Estava carregando uma dívida terrível:

O de vir de uma tradição nazi.

Também havia um cadelo

Que a ser carne ia destinado,

Era uma boca mais a alimentar,

Ninguém teve coração para matá-lo.

Houve inclusive uma escola

E um mestrinho de caligrafia.

Um estudante num tanque desfeito

a escrever paz apreendia…

Também houve um amor.

Ela tinha doze, ele quinze anos.

Numa casa em abandono

Penteou-lhe o seu cabelo ralo.

O amor não pode resistir

Quando existe tanto frio e vento:

Como as árvores podem florescer

Quando tanta neve há no inverno?

Houve também um funeral:

A do menino de colar veloso.

Foram dous alemães e dous polacos

Quem enterraram seu corpo.

Protestantes, católicos e até o rapaz nazi

Entregaram para a terra o judeu menino.

E finalmente um pequeno comunista falou

Do futuro dos vivos.

Havia, então, muita fé e esperança,

Mas não havia carne e pão.

Ninguém os repreenda se roubaram algo,

Porque ninguém os quis abrigar.

E ninguém censure ao homem pobre

Que não os convidou para a mesa:

Para meia centena, faz falta farinha,

não caridade, nem paciência.

As crianças foram caminhando

principalmente para o Sul.

O Sul é onde o sol ao meio-dia,

às doze, tem muita mais luz.

Encontraram um dia um soldado

Ferido, entre árvores de abeto,

Cuidaram dele por sete dias

Para lhes mostrar o caminho certo.

Ele lhes disse: Para Bilgoray!

Tinha estado muito febrento

E morreu no oitavo dia.

Também lhe deram sepultamento.

Havia placas de sinalização

Ainda que pola neve tapadas.

Não mostraram mais a direção

porque estavam todas viradas.

Isso não era apenas brincadeira

Mas uma causa militar.

E como eles procuravam Bilgoray

Não lhes foi possível o encontrar.

Reuniram-se em torno do seu líder.

E na neve fincou o olhar.

Apontou com a mãozinha

E disse: tem que estar por lá.

Uma vez, à noite, viram uma fogueira,

Não obstante não se achegarom.

Outra vez, viram três tanques que rolavam

E havia dentro soldados.

Quando chegaram a uma cidade

Eles a contornaram,

Também não ela acederam.

E à noite continuaram.

Onde antes ficava o Sudeste da Polónia

Houve fortes nevascas

Alguém aos cinquenta e cinco

Por última vez enxergara.

Quando eu os meus olhos fecho

Vejo-os caminhando

De uma fazenda destruída

Para prédios arruinados.

Acima deles, no alto das nuvens,

Vejo outras novas e grandes caravanas!

Que vagueam contra os ventos geados

Sem direção e sem casa.

Procurando uma terra com paz

Sem trovão e sem fogo,

Não como a que por trás deixaram,

E o conjunto se torna monstruoso.

E quando se achega o crepúsculo

Logo não são os mesmos:

Agora é que vejo outras caras:

Espanhóis, franceses, amarelos!

Na Polónia, no janeiro aquele

Um cadelo foi apanhado,

Tinha do seu pescoço magro

Uma cartaz de papelão pendurado.

Lia-se no cartaz: Pedimos ajuda!

Não sabemos mais o caminho.

O cão até nós vos trazerá.

Somos cinquenta e cinco.

Se é que não podem vir

pedimos de não persegui-lo,

Não o matem, por favor,

Só ele conhece o nosso sítio.

A escrita era de mão de criança

E lavradores quem leram o cartaz.

Desde então um ano e meio se passou

Que encontraram morto de fome um cão.

Kinderkreuzzug – 1939

(1942)

von Bertolt Brecht

In Polen, im Jahr Neununddreißig

War eine blutige Schlacht

Die hatte viele Städte und Dörfer

Zu einer Wildnis gemacht.

Die Schwester verlor den Bruder

Die Frau den Mann im Heer;

Zwischen Feuer und Trümmerstätte

Fand das Kind die Eltern nicht mehr.

Aus Polen ist nichts mehr gekommen

Nicht Brief noch Zeitungsbericht.

Doch in den östlichen Ländern

Läuft eine seltsame Geschicht.

Schnee fiel, als man sich’s erzählte

In einer östlichen Stadt

Von einem Kinderkreuzzug

Der in Polen begonnen hat.

Da trippelten Kinder hungernd

In Trüpplein hinab die Chausseen

Und nahmen mit sich andere, die

In zerschossenen Dörfern stehn.

Sie wollten entrinnen den Schlachten

Dem ganzen Nachtmahr

Und eines Tages kommen

In ein Land, wo Frieden war.

Da war ein kleiner Führer

Das hat sie aufgericht’.

Er hatte eine große Sorge:

Den Weg, den wußte er nicht.

Eine Elfjährige schleppte

Ein Kind von vier Jahr

Hatte alles für eine Mutter

Nur nicht ein Land, wo Frieden war.

Ein kleiner Jude marschierte im Trupp

Mit einem samtenen Kragen

Der war das weißeste Brot gewohnt

Und hat sich gut geschlagen.

Und ging ein dünner Grauer mit

Hielt sich abseits in der Landschaft.

Er trug an einer schrecklichen Schuld:

Er kam aus einer Nazigesandtschaft.

Und da war ein Hund

Gefangen zum Schlachten

Mitgenommen als Esser

Weils sie’s nicht übers Herz brachten.

Da war eine Schule

Und ein kleiner Lehrer für Kalligraphie.

Und ein Schüler an einer zerschossenen Tankwand

Lernte schreiben bis zu Frie…

Da war auch eine Liebe.

Sie war zwölf, er war fünfzehn Jahr.

In einem zerschossenen Hofe

Kämmte sie ihm sein Haar.

Die Liebe konnte nicht bestehen

Es kam zu große Kält:

Wie sollen die Bäumchen blühen

Wenn so viel Schnee drauf fällt?

Da war auch ein Begräbnis

Eines Jungen mit samtenen Kragen

Der wurde von zwei Deutschen

Und zwei Polen zu Grab getragen.

Protestant, Katholik und Nazi war da

Ihn der Erde einzuhändigen.

Und zum Schluß sprach ein kleiner Kommunist

Von der Zukunft der Lebendigen.

So gab es Glaube und Hoffnung

Nur nicht Fleisch und Brot.

Und keiner schelt sie mir, wenn sie was stahl’n

Der ihnen nicht Obdach bot.

Und keiner schelt mir den armen Mann

Der sie nicht zu Tische lud:

Für ein halbes Hundert, da braucht es

Mehl, nicht Opfermut.

Sie zogen vornehmlich nach Süden.

Süden ist, wo die Sonn

Mittags um zwölf steht

Gradaus davon.

Sie fanden zwar einen Soldaten

Verwundet im Tannengries

Sie pflegten ihn sieben Tage

Damit er den Weg ihnen wies.

Er sagte ihnen: Nach Bilgoray!

Muß stark gefiebert haben

Und starb ihnen weg am achten Tag.

Sie haben auch ihn begraben.

Und da gab es ja Wegweiser

Wenn auch vom Schnee verweht

Nur zeigten sie nicht mehr die Richtung an

Sondern waren umgedreht.

Das war nicht etwa ein schlechter Spaß

Sondern aus militärischen Gründen.

Und als sie suchten nach Bilgoray

Konnten sie es nicht finden.

Sie standen um ihren Führer.

Der sah in die Schneeluft hinein

Und deutete mit der kleinen Hand

Und sagte: Es muß dort sein.

Einmal, nachts, sahen sie ein Feuer

Da gingen sie nicht hin.

Einmal rollten drei Tanks vorbei

Da waren Menschen drin.

Einmal kamen sie an eine Stadt

Da machten sie einen Bogen.

Bis sie daran vorüber waren

Sind sie nur nachts weitergezogen.

Wo einst das südöstliche Polen war

Bei starkem Schneewehen

Hat man die fünfundfünfzig

Zuletzt gesehn.

Wenn ich die Augen schließe

Seh ich sie wandern

Von einem zerschossenen Bauerngehöft

Zu einem zerschossenen andern.

Über ihnen, in den Wolken oben

Seh ich andre Züge, neue, große!

Mühsam wandernd gegen kalte Winde

Heimatlose, Richtungslose

Suchend nach dem Land mit Frieden

Ohne Donner, ohne Feuer

Nicht wie das, aus dem sie kamen

Und der Zug wird ungeheuer.

Und er scheint mir durch den Dämmer

Bald schon gar nicht mehr derselbe:

Andere Gesichtlein seh ich

Spanische, französische, gelbe!

In Polen, in jenem Januar

Wurde ein Hund gefangen

Der hatte um seinen mageren Hals

Eine Tafel aus Pappe hangen.

Darauf stand: Bitte um Hilfe!

Wir wissen den Weg nicht mehr.

Wir sind fünfundfünfzig

Der Hund führt euch her.

Wenn ihr nicht kommen könnt

Jagt ihn weg

Schießt nicht auf ihn

Nur er weiß den Fleck.

Die Schrift war eine Kinderhand.

Bauern haben sie gelesen.

Seitdem sind eineinhalb Jahre um.

Der Hund ist verhungert gewesen.

*Gráfico de Herbert Sandberg para a “Cruzada dos meninhos” de Brecht desenhado em 1979.

SEI QUE ME VES

Eu sei que ti me ves

E eu non te vexo

Sentado aí na fronte deste templo

Eu sei que ti me ves

Eu non te vexo

Sachando na horta,

gerra palestina do teu desvelo

Estás aí Tras do Poxigo

Tras do Poxigo da tribo

Onde todo foi comezo

Eu non te oio

Eu non te vexo

Cantas balas deben de impactar

nos meus tímpanos

para te poder ouvir berrar?

Cantas pedras teñen que me tirar

á cara e aos ollos para rachar o veo?

Eu non te oio

Eu non te vexo

Carrexando a vida onde fun parida

Entre seculares muros

Que choran a desidia

No esmorecemento

E seu que ti me ves

Eu sei que ti nos ves

Eu non te vexo

O medo enche o meu ouvido

de tebras sanguentas

E eu non te vexo

E eu non te vexo

Porque na auga que non bebo

non vexo máis que reflexos.

Pilar Maseda – Xaneiro 2019.

LEMBRANÇA DE MARIA A., de Bertolt Brecht, traducido ao galego-portugués por André Da Ponte

LEMBRANÇA DE MARIA A.

Bertolt Brecht

A tradução deste poema vai dedicado à poetisabrasileira Lauelina NL

que me encorajou a vertê-lo para a língua galego-portuguesa.

20 de janeiro de 2019.

Lembrança ou lembrando Maria A. é um poema de Bertolt Brecht escrito num caderno quando ia de trem para Berlim em 21 de fevereiro de 1920. O grande poeta publicou mais tarde este poema no poemário Bertolt Brechts Hauspostille (Piedade de Bertolt Brecht).

O poema vem a tematizar o recordo dum passado amor que Brecht, de forma magistral, capturou na imagem da nuvem branca que passa. A imagem da nuvem que desvanece com a lembrança da amada é um motivo literário que na altura usava o genial poeta, dramaturgo, romancista e teórico regularmente. Maria A. refere-se à rapariga de quem andou namorado em Augsburgo: Marie Rose Amann.

Quero acrescentar que o texto impresso não diverge da versão manuscrita em 1920. A única diferença chamativa vem do título. A “Canção sentimental número 1004” foi trocado polo de “Memória de Maria A”. Daí que a referência biográfica veio à tona apenas na versão impressa.

No poema, ao meu pobre entender, quer se manifestar o facto da memória incidir na perda da própria memória, isto é, sobre a dúvida. A memória é fugaz e casual.

Trata-se, sem qualquer dúvida, dum dos poemas de amor mais belos já escritos no século XX.

O poema foi musicado pola colaboração entre o poeta e o pianista e compositor Franz Servatius Bruinier (Berlim, 13 de maio de 1905 – Berlim, 31 de julho de 1928). Deixo debaixo um vídeo com o poema cantado.

MEMÓRIA DE MARIA A.

1

Naquele dia na lua azul de setembro

Ainda sob uma ameixeira jovem

Segurei o amor quieto e pálido

Entre os meus braços como um sonho doce.

E sobre nós no lindo céu de verão

Uma nuvem que vi por muito tempo

Era muito branca e tremendamente alta

E quando olhei para cima, já mais não estava.

2

Desde esse dia muitas, muitas luas

Flutuaram calmamente e têm passado.

As ameixeiras foram provavelmente arrancadas

E se acaso me perguntas, o que foi daquele amor?

Então eu te digo: não consigo lembrar-me

E, no entanto, certamente, já sei o que queres dizer.

Ainda que o rosto dela, realmente, não lembre

Tudo o que sei agora é que eu beijei-a um dia.

3

E também o beijo teria esquecido há muito tempo

Se aquela nuvem não houvesse estado lá;

Lembro ainda dela e sempre a recordarei,

Era muito branca e vinha de cima,

Pode ser que as ameixeiras ainda floresçam

E que aquela mulher agora tenha o sétimo filho

Mas aquela nuvem só floresceu por alguns minutos

E quando olhei para cima, ela já estava debilitando-se ao vento.

Bertolt Brecht

(21.II.20, à noite 7h no trem para Berlim)

ERINNERUNG AN DIE MARIE A.

1
An jenem Tag im blauen Mond September
Still unter einem jungen Pflaumenbaum
Da hielt ich sie, die stille bleiche Liebe
In meinem Arm wie einen holden Traum.
Und über uns im schönen Sommerhimmel
War eine Wolke, die ich lange sah
Sie war sehr weiß und ungeheuer oben
Und als ich aufsah, war sie nimmer da.

2
Seit jenem Tag sind viele, viele Monde
Geschwommen still hinunter und vorbei.
Die Pflaumenbäume sind wohl abgehauen
Und fragst du mich, was mit der Liebe sei?
So sag ich dir: ich kann mich nicht erinnern
Und doch, gewiß, ich weiß schon, was du meinst.
Doch ihr Gesicht, das weiß ich wirklich nimmer
Ich weiß nur mehr: ich küßte es dereinst.

3
Und auch den Kuß, ich hätt ihn längst vergessen
Wenn nicht die Wolke dagewesen wär
Die weiß ich noch und werd ich immer wissen
Sie war sehr weiß und kam von oben her.
Die Pflaumenbäume blühn vielleicht noch immer
Und jene Frau hat jetzt vielleicht das siebte Kind
Doch jene Wolke blühte nur Minuten
Und als ich aufsah, schwand sie schon im Wind.

Bertolt Brecht


(21.II.20, abends 7h im Zug nach Berlin)