Um grande poeta italiano, TORQUATO TASSO, para além da Jerusalém liberada, por André Da Ponte

UM GRANDE POETA ITALIANO, TORQUATO TASSO, PARA ALÉM DA JERUSALÉM LIBERADA.

            Tasso nasceu em 11 de março de1544 em Sorrento dentro duma família aristocrática. Sua mãe Portia dei Rossi era napolitana de origem. Tasso nasceu quando seu pai, Bernardo Tasso, estava ausente agindo como secretário e poeta cortesano de Ferrante Sanseverino, príncipe de Salerno. O pai voltou a Sorrento em janeiro de 1545; no verão do mesmo ano, o futuro grande poeta foi levado para Salerno, onde passou a sua primeira infância. A partir de 1550 morou com a sua família em Nápoles. Tasso estudou no Colégio do mosteiro beneditino de Cava de Tirreni (onde está a tumba de Urbano II, o Papa que proclamara a Primeira Cruzada) desempenhando brilhantemente os estudos de latim, grego e retórica. Em 1554, Bernardo Tasso recebeu a permissão para poder morar em Roma  e Torquato Tasso viajou só com seu pai. Na cidade pontifícia foi Bernardo quem educou seu filho em particular, e ambos sofreram um grave trauma quando em fevereiro de 1556 souberam da morte de Porzia, provavelmente envenenada polos irmãos por razões de interesse (muito versomilmente para não pagar a dote). Logo após a infeliz perda da esposa e mãe, Bernardo Tasso enviou seu filho para seus pais em Bergamo, enquanto ele mesmo ficava em Urbino, com Guidobaldo de Urbino. Alguns meses depois, o filho juntou-se a ele; aquí, na cidade de Urbino estudou com Francesco Maria II Della Rovere, filho de Guidobaldo, e Guidobaldo Del Monte, então ilustre matemático. Neste período teve como professores o poligrafo Girolamo Muzio, o poeta local Antonio Galli e o matemático Federico Commandino. Torquato passou apenas o verão em Urbino, como a corte passou o inverno em Pesaro Tasso entrou em contato com o poeta Bernardo Cappello e Dionigi Atanagi, e escreveu a primeira composição que conhecemos: um soneto em louvor da corte. Tasso envolveu-se, na altura, na leitura dos grandes poetas clássicos, especialmente Virgílio e Homero. Na primavera de 1559, Bernardo foi a Veneza para o lançamento do seu poema “Amadigi” e o grande poeta seguiu o pai. Neste momento, Torquato compõe os poemas que foram incluídos na coleção coletiva de 1561 e concebe o poema “Rinaldo”, onde o cavaleiro perfeito desenha a ambição e o amor pola dama, notando-se, sobremaneira, as influências diretas de Virgílio. Temente o pai dos conflictos desatados entre o imperador Felipe II e o papa Pablo IV e que os espanhóis pareciam estar prestes a atacar a cidade, enviou Torquato para Bergamo no Palazzo Tasso e para a Villa dei Tasso com alguns parentes e ele se refugiou na corte de Urbino Guidobaldo II Della Rovere, juntando-se o pai alguns meses depois. Nos seus tempos livres, Torquato estudou muito a Platão e Aristóteles, dedicou-se a Dante e escreveu comentários sobre a “Divina Comédia”. Em 1560, seu pai enviou o filho para Pádua com a finalidade que estudasse jurisprudência, actividade que poderia fornecer-lhe no futuro uma segura estabilidade económica; porém, na universidade, Tasso esteve muito mais envolvido na poesia e na filosofia do que com os estudos legislativos. Em 1562, o seu poema “Rinaldo”, longo poema em doze cantos que se pode considerar como o antecedente da sua monumental “Jerusalén liberada” (Gerusalemme liberata) foi publicado em Veneza. O grande poeta tinha na altura apenas 18 anos. Em 1563 e no início de 1564, Torquato continuou os seus estudos em Bolonha, mas foi expulso da cidade por causa de certos poemas satíricos.

            Por convite do Príncipe Schipione Gonzaga, Torquato vai para Pádua, continua estudando e é admitido como membro da Academia degli Eterei (Academia dos Etéreos) onde adota o sobrenome de Pentito (Arrepentido); nessa academia lê os seus poemas frente a um erudito e versado público que fica admirado do seu enorme talento. No verão de 1564 em Mântua, conhece e se apaixona primeiro por Lucrezia Bendiddio e depois por Laura Peperara, a quem dedicou vários poemas. Formado já na Universidade, no verão de 1565 e a convite do Cardeal Luigi D’Este (irmão do Duque de Ferrara) chegou a Ferrara. Foi recebido favoravelmente na corte do Duque Afonso II de Ferrara: a sua erudição e talento poético deram um novo brilho à corte. No início, Tasso ficou cego pola corte de Ferrara e foi especialmente apreciado polas suas damas da corte, lideradas por Marfisa d’Este e as irmãs do Duque, Lucrécia e Leonor. Foi ali que Tasso se reuniu com escritores famosos, incluindo Battista Guarini e Giovan Battista Pigna e foi neste período quando o grande poeta escreveu a primeira cruzada do seu grandioso poema “A Jerusalém liberada” dando-lhe o nome de Gottifredo. Em 1566 os cantos já eram seis e irão aumentar nos anos seguintes. Em 1568 publicou as “Considerações sobre três canções do Giovan Battista Pigna”, onde surgiu a concepção platônica e estilística que Tasso tinha do amor, com algumas notas, no entanto, bastante peculiares, que o levaram a reconhecer o divino em tudo que é belo. e definir o amor puramente físico como uma matriz sobrenatural. Os conceitos foram reafirmados nas “Cinquenta conclusões de amor” publicadas dous anos depois. Os primeiros dez anos em Ferrara foram o período mais feliz da vida de Tasso, em que o poeta viveu apreciado por senhoras e senhores polo seu talento poético e a elegância mundana. Em outubro de 1570, Tasso, juntamente com o cardeal Luigi D’Este, foi para a França, onde conheceu o gigante da poesia Pierre Ronsard (a tradução feita por mim do seu soneto mais célebre: “Quand vous serez bien vieille, au soir à la chandelle” pode-se lido aqui: http://culturaliagz.com/?s=Pierre+Ronsard); no entanto, em março do ano seguinte, devido a dificuldades financeiras, o seu empregador deixou Paris. Após o seu retorno não demorou muito em Ferrara; a partir de janeiro de 1572 recebeu um salário na corte do duque, sem desempenhar nenhuma função específica; Acompanhou o duque em viagens a Roma, Pesaro, Veneza. Em 1573, Tasso escreveu o drama pastoral “Aminta”, que é uma das suas obras mais famosas. A obra colossal a “Jerusalém libertada” foi concluída em abril de 1575. Uma vez concluída visitou Roma para o Ano Jubilar. Ao longo de 1576 trabalhou diligentemente, às vezes dolorosamente, para aprimorar o poema. Em abril do mesmo ano, na Páscoa, visitou Módena. En setembro, houve um confronto público entre Tasso e um tal Ercole Fucci, durante o qual o poeta recebeu um golpe na cabeça com um pau. Retornou a Módena, onde compôs poemas em homenagem à poetisa e compositora musical  Tarquinia Molza (Módena, 1 de novembro de 1542–Módena, 8 de agosto de 1617)  e, por fim, voltou para Ferrara em janeiro de 1577.

            Segundo o célebre historiador da literatura italiana Mikhail Leonidovich Andreiev (veja-se a sua monumental История литературы Италии. Том II. Возрождение. Книга 2. Чинквеченто. М., ИМЛИ РАН. —2010. (História da Literatuta Italina. Volume II. Cinquecento. Reavivamento. Livro. M. Ili Ran, 2010): “Em meados dos anos 70 começou a mostrar mais e mais óbvios sinais de mania persecutória, tornando-se medos obsessivos e alcançado o clímax em 1 de junho de 1577 com um ataque de loucura: atacou um servo com uma faca antes de Lucretia D’ Este. Foi submetido no palácio ducal, mas conseguiu fugir na noite do 27 de Julho disfarçado e cruzou a Itália para ir para Sorrento junto da sua irmã… e no seguinte ano e meio passou a viajar entre Roma, Mântua, Veneza, Pesaro e Turim até fevereiro 1579. Voltou novamente para Ferrara, na véspera do casamento do Duque e Margarita Gonzaga. No clímax das celebrações de casamento, em 11 de março, o dia do se aniversário de trinta e cinco anos, a loucura voltou mais uma vez e atacou os cortesãos com ameaças e, ainda que não foi enviado para a prisão, embora para o hospital, foi colocado numa cadeia como um polícia de vigiada”.

            Tasso, segundo indicam estudos recentes, não era simplesmente preso por uma melancolia, mas era ocasionalmente surpreendido polos excessos da mania, por ser perigoso para si mesmo e para os outros, mas mesmo que esses desequilíbrios devessem ter realmente se manifestado, não justificam a tese da loucura ou a necessidade de remover Tasso da corte por um período tão longo. Portanto, com boa probabilidade, a principal razão deve estar ligada mais uma vez com as tentativas estúpidas de recorrer à Inquisição Romana, e a prisão era a única maneira de não comprometer o relacionamento da corte ducal com os Estados Pontifícios.

            No hospital de Santa Ana, o poeta finalmente passou sete anos, mas suas condições de detenção nem sempre foram duras (recomendo com vivo interesse se olhe a pintura de Eugène Delacroix, “Tasso no hospital de Sant’Anna”, estarrecedora recriação da detenção do genial poeta). Às vezes era levado para a cidade e, aparentemente, às vezes podia andar pola rua, o que torna muito provável que Tasso conhecesse Michel Montaigne, que estava em Ferrara em novembro de 1580. E, de fato, nos “Ensaios” é mencionada a lamentável condição do grande poeta italiano; no entanto, no seu diário de viagem, Montaigne negligencia esse encontro (hipotético!). Em julho de 1586, um amigo de Tasso, Vincenzo Gonzaga levou o poeta a Mântua, onde poderia trabalhar em relativa paz, mas logo houve um novo episódio de doença. Em outubro de 1587, Tasso escapou do hospital, foi para Roma através de Bolonha e, em março de 1588, chegou a Nápoles e estabeleceu-se no mosteiro de Olivetan.

            Em novembro de 1588, Tasso voltou a Roma, onde viveu sob o patrocínio de Sipione Gonzaga até agosto de 1589; Devido ao comportamento inadequado foi expulso e retornou ao mosteiro. Em 1590-1591 viveu por sua vez em Florença, Roma e Mântua. Em janeiro de 1592, a convite de Matteo di Cápua foi para Nápoles. Nos últimos anos da sua vida, o poeta criou uma nova versão da sua obra principal: o longo poema em vinte cantos “A Jerusalém conquistada”, que está de acordo com os princípios ideológicos da Contra-Reforma. 1594 recebeu um convite do Papa para acudir a Roma como grande poeta e ser coroado em Campidoglio, mas não há certeza sobre isso e o mais provável é que fosse um delírio do próprio poeta. Tasso em abril de 1595 entrou no mosteiro de São Onofre, no Gianicolo onde, ao que parecia, o ar era mais curativo para ele. Em 25 de abril de 1595, antes de chegar à coroação, Torquato Tasso morre. O grande poeta está enterrado no Trastevere, na igreja de Sant’Onofrio al Gianicolo, localizada no Janículo, parte do rio Trastevere, em Roma.

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A tradução é feita com um soneto de onze sílabas.

O texto em italiano foi recolhido de: “Poesia italiana. Il Cinquecento, a cura di Giulio Ferroni”, Aldo Garzanti Editore, 1978, página 55.

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Enquanto o pêlo de ouro balança entorno

da extensa frente com gracioso error;

enquanto que de vermelhão e linda cor

A primavera o seu rosto faz o adorno.

Enquanto o céu límpido abre em seu retorno,

pegai, ó raparigas, a vaga flor

dos seus mais doces anos; e com amor

conservai vosso semblante sem trastorno.

virá depois o inverno, de branca neve

vestir as colinas e cobrir a rosa

e as chuvas tornarão árduas e tristes.

Colhei, tolas, a flor, porque ela é breve,

e muito fugaz é a hora, e o clima adoça

e ao fim corre rápido quanto vistes.

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MENTRE CHE L´AUREO CRIN V´ONDEGGIA INTORNO

Mentre che l’aureo crin v’ondeggia intorno

a l’ampia fronte con leggiadro errore;

mentre che di vermiglio e bel colore

vi fa la primavera al volto adorno.

Mentre che v’apre il ciel puro il giorno,

cogliete, o giovinette, il vago fiore

de vostri più dolci anni; e con amore

state sovente in lieto e bel soggiorno.

Verrà poi’l verno, che di bianca neve

soul i poggi vestir, coprir la rosa

e le pioggie tornar aride e meste.

Cogliete, ah stolte, il fior, ah siate preste,

che fugaci son l’ore, è’l tempo lieve

e veloce a la fin corre ogni cosa.

Torquato Tasso

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Imagem: “Torquato Tasso e Leonora d’Este”. Pintura de Felice Schiavoni (Trieste, 19 de março de 1803 – Trieste, 30 de janeiro de 1868).  

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BRISA MARINHA, poema de Stéphane Mallarmé en versión galego-portuguesa de André Da Ponte

STÉPHANE MALLARMÉ

1842 – 1898

            Étienne Mallarmé, conhecido como Stéphane Mallarmé, nasceu em Paris em 18 de março de 1842. O poeta perdeu a mãe quanto apenas tinha cinco anos com o que foi criado pola sua avó.

            Admirador de Théophile Gautier, Charles Baudelaire e Théodore de Banville, Stéphane Mallarmé publicou os seus primeiros versos em 1862. Professor de inglês por necessidade vital, foi nomeado professor desta língua em setembro de 1863 no colégio Tournon-sur-Rhône em Ardèche («que inclui as duas palavras às quais dediquei a minha vida: Art, Dèche») e permaneceu em Besançon e Avignon, antes de voltar a Paris em 1871. Foi então quando se juntou a autores como Paul Verlaine, Émile Zola, Catulle Mendès, ou Auguste de Villiers de L’Isle-Adam e artistas como Edouard Manet, que pintou o seu retrato em 1876.

            Encontrou-se com dificuldades no seu trabalho como professor (era escarnecido polos seus alunos), mas levou uma vida familiar pacífica, pontuada por dificuldades financeiras e um fundo pesar, especialmente pola morte de seu filho Anatole em 1879 aos oito anos de idade. Escreveu poemas extremamente elaborados e recebeu os seus amigos poetas e romancistas durante as terças-feiras na rua de Roma ou na sua casa de campo, em Valvins, perto de Fontainebleau, onde morreu em 9 de setembro de 1898 aos 56 anos de idade.

            Atraído pola estética da arte pola arte, colaborou no Parnasso Contemporâneo desde 1866. Com efeito, o primeiro fascículo do Parnasse Contemporaine contém dez dos seus poemas. [Quem ter curiosidade pode ler esta fulcral edição francesa nesta ligação:https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k199820].  A sua obra tornou-se um esforço colossal na busca por superar o seu sentimento de impotência ligado a um estado depressivo, na diligência da pura beleza que ao seu entender é só criação da arte: «o mundo é feito para fornecer um belo livro». Tentou levar a cabo uma obra ambiciosa que retrabalhará por muito tempo como mostra o seu magno poema inacabado Herodiades (1864-1887) ou A Tarde dum Fauno (1865-1876), da qual Claude Debussy irá compor uma das suas mais famosas obras sinfônicas em 1892-1894). Deste poema Paul Valéry tem escrito que é o mais grande poema já escrito por autor francês. Admirador de Edgar Allan Poe, traduziu O Corvo (1845), que foi publicado em 1875 com ilustrações de Edward Manet, e escreveu o célebre soneto ao Túmulo de Poe em 1876 que, traduzido por mim, pode ser lido em CulturaliaGZ aquí: http://culturaliagz.com/?s=Mallarm%C3%A9 .

            Em 1887, publicou uma edição dos seus poemas que mostram a sua pesquisa estilística, como o «Soneto en X» (em duas versões e que tentarei traduzir para colocar cá), ou o soneto em octosílabos «A renda é abolida». O ponto culminante dessa ambição do poema absoluto aparece no poema gráfico de 1897 «Um golpe de dados nunca abolirá o acaso». Essa busca por uma expressão densa em direção à pureza valeu-lhe, entretanto, desde o começo, o oprobrioso termo de hermético, intrincado, escuro, que permanece ligado à arte mallarmeana.

            A fama de Stéphane Mallarmé consolida-se ainda mais em 1884, quando Paul Verlaine inscreve-o na série de poetas malditos num longo escrito sobre Mallarmé (“Les Poètes maudits” teve uma segunda edição aumentada nesse mesmo ano e ainda uma terceira acrescentada e ilustrada em 1888) [pode se aceder ao texto nesta ligação: https://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k72580r], onde é descrito como o portador da modernidade e próximo das vanguardas na arte e na literatura. Foi reconhecido como mestre polas gerações poéticas mais jovens, de Henri de Regnier  até os simbolistas e Paul Valéry. Assim, empenhado num ambicioso trabalho poético (talvez por isso a sua obra mestra, Hérodiade, ficou sem poder ser acabada), Stéphane Mallarmé é iniciador na segunda metade do século XIX duma renovação da poesia que é culminação à vez que superação do simbolismo, cuja influência ainda se ressente nos poetas contemporâneos como Yves Bonnefoy (Tours, 24 de junho de 1923 ─ Paris, 1 de julho de 2016).

            Em 8 de setembro de 1898, Mallarmé sofreu um espasmo da laringe que não conseguiu curar. Na mesma noite, mandou numa carta para sua esposa e filha para serem destruidos os seus papéis e notas, declarando: «Não existe legado literário aí …», no mesmo proceder que teve o grande romancista Franz Kafka ou, entre nós, Rosalia de Castro. Na manhã seguinte, vítima da enfermidade,  morreu nos braços do seu médico, na presença de sua esposa e filha. Está enterrado ao lado de seu filho Anatole no cemitério de Samoreau, perto de Valvins.

            O texto do poema em francês foi tirado da edição “Poésies”, Bookking International, Paris, página 31.

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BRISA MARINHA

A carne é triste, ai! e eu li todos os livros.

Escapar! lá, fugir! Sinto que os pássaros são ébrios

De se abandonar à espuma e aos imensos céus!

Nada, nem os antigos jardins refletidos nos olhos

Vão impedir este coração se submergir no mar

Ó noites! nem a luminosidade deserta da minha lâmpada

No papel vazio que a brancura anseia

E nem a jovem amamentando seu filho.

Partirei! Vapor balançando teus mastros,

Ergue a âncora para uma exótica natureza!

Tédio, desculpe polas esperanças cruéis,

Ainda crê no supremo adeus dos lenços!

E, talvez, os mastros, convidando tempestades,

São daqueles que um vento faz romper-se sobre os naufrágios

Perdido, sem mastros, sem mastros ou ilhotas férteis …

Mas, oh meu coração, escuita o canto dos marinheiros!

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STÉPHANE MALLARMÉ
1842 – 1898

BRISE MARINE

La chair est triste, hélas ! et j’ai lu tous les livres.
Fuir ! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
D’être parmi l’écume inconnue et les cieux !
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce coeur qui dans la mer se trempe
Ô nuits ! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai ! Steamer balançant ta mâture,
Lève l’ancre pour une exotique nature !

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à l’adieu suprême des mouchoirs !
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages,
Sont-ils de ceux qu’un vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots …
Mais, ô mon coeur, entends le chant des matelots !

Foto de Mallarmé na Rua Roma em 1894:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ee/St%C3%A9phane_Mallarm%C3%A9_-_89_Rue_de_Rome_-_Anonyme_1894-95.jpg/1280px-St%C3%A9phane_Mallarm%C3%A9_-_89_Rue_de_Rome_-_Anonyme_1894-95.jpg

Poema de Guido Guinizelli, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

GUIDO GUINIZELLI

            (Bolonha, entre 1230 e 1240 – Monselice, 1276) foi um poeta italiano. Filho de juiz proveniente duma família nobre, os Principi, seguiu o conselho de seu pai e, depois de concluir os seus estudos de direito na Universidade de Bolonha, dedicou-se à profissão jurídica na cidade de Castelfranco Emilia, enquanto participava da vida política da cidade dividida entre Guelfos (defensores das liberdades comunais e apoiados polo Papa), liderados polos Lambertazzi  e os Gibelinos (seguidores do Imperador do Sacro Império Romano-Germânico) que estavam sob o comando dos Geremei. Tornou-se um alto funcionário, mas em 1274, quando a vitória dos Guelfos aconteceu, sendo gibelino deve ir para o exílio com sua mulher, Bice della Fratta  e o filho, Guiduccio Guinizzelli, em Monselice, perto de Pádua (região do Vêneto), onde ele viria morrer. Guido Cavalcanti considerou-o o seu mestre poético e Dante chamou-o “o pai dos poetas italianos”:

…quand ‘io odo nomar sé stesso il padre

mio e de altri miei miglior che mai

rime d’amor usando dolci e leggiadre…

(Purgatorio, XXVI 97-98).

(…Quando o nome essas vozes declararam

Do pai meu e do pai doutros melhores

Que em doce metro amores decantaram…)

Nota.- Tomo a tradução feita em 1888 polo escritor e tradutor brasileiro José Pedro Xabier Pinheiro (12 de outubro de 1822, Salvador, Estado de Bahía – 20 de outubro de 1882,Rio de Janiero, Estado de Rio de Janiero)

            Pai do “Dolce Stil Nuovo” (fórmula consagrada por Dante no canto XXIV do Purgatório da Divina Comédia), apenas restam do seu original Cancioneiro cinco canções e quinze sonetos.

            Este poeta, considerado hoje como arcaico, está mais próximo pola sua temática e métrica dos poetas sicilianos da época do que dos toscanos.

            O aspecto inovador da sua arte origina-se na temática avançada aos poetas toscanos da época. De facto, existe para o poeta, por um lado, uma relação direta entre a nobreza do coração e o amor, e não mais polo nascimento. Por outro lado, a onipotência da irradiação mística da Senhora é apresentada como um reflexo da glória de Deus. Finalmente, podemos falar de uma ruptura formal com a melodia da linguagem, uma sintaxe cristalina sem preciosidade prosódica. A poesia de Guinizzelli, devido ao uso de uma terminologia escolástica, é muito elaborada e nem sempre acessível na primeira leitura. No entanto, permanece um poder revigorante excitado pola sua seiva de imagens, um verdadeiro espelho dos sentimentos humanos.

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Tens tu das flores e verdura

o que de toda a luz é bonito de ver;

brilha mais que o sol a sua figura:

quem não vê, pode-lhe a pena valer.

Neste mundo não existe criatura

tão cheia de beldade ou de prazer;

e quem amores teme, se segura

à sua linda cara que tanto eu querer.

As mulheres que te fazem companhia

assim me deleitam polo teu amor;

e exalto-as pola sua cortesia

que quanto mais puder ter por honor

e cuidado da sua cara senhoria

por causa de tudo tu és a melhor.

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Avete ‘n vo’ li fior’ e la verdura

e ciò che luce ed è bello a vedere;

risplende più che sol vostra figura:

chi vo’ non vede, ma’ non pò valere.

In questo mondo non ha creatura

sì piena di bieltà né di piacere;

e chi d’amor si teme, lu’ assicura

vostro bel vis’a tanto ‘n sé volere.

Le donne che vi fanno compagnia

assa’ mi piaccion per lo vostro amore;

ed i’ le prego per lor cortesia

che qual più può più vi faccia onore

ed aggia cara vostra segnoria,

perché di tutte siete la migliore.

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Imagem: O copo amoroso, pintura de Dante Gabriel Rossetti, 1867:

https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/ef/Dante_Gabriel_Rossetti_-_The_Loving_Cup_-_Google_Art_Project.jpg/800px-Dante_Gabriel_Rossetti_-_The_Loving_Cup_-_Google_Art_Project.jpg

Presentación do libro A FÁBRICA DE TABACOS DA CORUÑA E A FÁBRICA DE MISTOS. FACTORES DE TRANSFORMACIÓN DUNHA CIDADE, de Ana Naseiro Ramudo, na Casa da Cultura de Vilalba

Acto de presentación do libro A fábrica de tabacos da Coruña e a fábrica de mistos. Factores de transformación dunha cidade , de Ana Naseiro Ramudo, que organiza o IESCHA coa colaboración do Concello de Vilalba, e que terá lugar o vindeiro venres, día 5 de abril de 2019, ás 20:30 horas, na Casa da Cultura de Vilalba.

Vexamos cartaz e nota informativa de dito evento cultural.

*Información achegada polo IESCHA.

O poema CANÇÃO BÁQUICA, de Alexander Pushkin, versión galego-portuguesa de André Da Ponte

Alexander Sergueievitch Pushkin(em russo: Алекса́ндр Серге́евич Пу́шкин; Moscovo, 26 de maio [calendário juliano] / 6 de junho de 1799 [calendário gregoriano] de 1799 — São Petersburgo, 29 de janeiro / 10 de fevereiro [calendário gregoriano] de 1837.  

CANÇÃO BÁQUICA

O que silenciou a alegria da voz?

Ressoai, corais licenciosas!

Vivei vós, virgens carinhosas

E esposas jovens amantes a nós!

Botai um copo cheio sem tardança!

De vinho a espumar.

No fundo da taça a jogar

Os anéis de aliança!

Erguei a taça, de vez seja finda!

Vivam as musas, a razão seja bem-vinda!

Queime o seu sagrado sol!

Como esta lâmpada se desvanece

Antes de acontecer a claridão

Assim a falsa sabedoria empalidece

Ante o sol imortal da razão.

Viva o sol, seja extinguida a escuridão!

(1825)

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ВАКХИЧЕСКАЯ ПЕСНЯ

Что смолкнул веселия глас?

Раздайтесь, вакхальны припевы!

Да здравствуют нежные девы

И юные жены, любившие нас!

Полнее стакан наливайте!

На звонкое дно

В густое вино

Заветные кольца бросайте!

Подымем стаканы, содвинем их разом!

Да здравствуют музы, да здравствует разум!

Ты, солнце святое, гори!

Как эта лампада бледнеет

Пред ясным восходом зари,

Так ложная мудрость мерцает и тлеет

Пред солнцем бессмертным ума.

Да здравствует солнце, да скроется тьма!

(1825)

Texto em russo segundo a edição: Стихотворения 1825 г.• Датируется январем — сентябрем 1825 г. Напечатано Пушкиным впервые в «Стихотворениях А. Пушкина» изд. 1826 г., стр. 79. в отделе «Разные стихотворения». (Datado de janeiro a setembro de 1825. Impresso por Pushkin pola primeira vez na edição de “Poemas de A. Pushkin”. 1826, p. 79. na seção “Poemas Diferentes”)

Imagem: Duelo de Pushkin. Pintura de Adrião Volkov.

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